A Crônica da Semana: Onde estão as crianças ‘com gesso’? Ou pequenas mentes ‘engessadas’
Amigos leitores e internautas. A ‘Crônica da Semana’ desta segunda-feira, 05/01, não é para fazer apologia às fraturas em crianças, LONGE DISSO, mas uma reflexão sobre a infância de ontem e de hoje.

Lá pelo final dos anos 80 e início de 90, quando eu fui criança, notava-se mais meninos e meninas com alguma parte do corpo engessada. O gesso era sinal de ‘arte’: alguma havia sido aprontada e resultante em principalmente braço ou pernas fraturadas e engessadas.
Quase todo mês aparecia uma criança na escola, nas rodinhas de calçada ou na casa das avós com o gesso… E a curiosidade aguçava. “Cai da mangueira, da goiabeira, da árvore…”. “Cai de bicicleta…”. “Foi no futebol…”. As estripolias eram as mais variadas.
Até eu entrei para a lista… Menina era mais difícil aparecer engessada, mas também acontecia. Comigo foi aos 10 anos: fratura exposta no antebraço esquerdo, após cair na canaleta da construção de uma casa em que eu estava brincando e bater o braço num tijolo… Três meses de gesso, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.
Quem já engessou alguma parte do corpo sabe o quanto se sofre com coceiras, principalmente no verão. A agulha de tricô de minha mãe era o ‘coçador’ oficial no gesso que pegava quase meu braço e antebraço inteiros.
Hoje é difícil ver uma criança que se frature assim. Graças a Deus quase não sabem subir em árvores para pegar manga, goiabas. Não descem ladeiras de carrinho de rolimã e nem se aventuram nas construções, ou seja, não se acidentam como na época em que minha geração tinha entre sete e doze anos…
Mas creio que atualmente ‘as fraturas’ são um pouco diferentes e não menos piores. São ‘fraturas’ na mente, onde o pular corda, andar de bicicleta e até subir em árvores deram lugar ao não menos perigoso celular.
Quase não se vê crianças brincando ao ar livre. Claro que os tempos mudaram, há perigos mais iminentes nas ruas hoje em dia, entretanto, o que noto é que muitas crianças ‘trocam’ diversões saudáveis, recreativas pelas telas. O mundo virtual é convidativo e não há como fugir dele.
Todavia são necessárias mais atividades que envolvam as crianças além dos ‘joguinhos’ virtuais. Nas férias geralmente os clubes particulares promovem ações neste sentido, o que é excelente às crianças. Não sei se haverá alguma atividade a ser promovida pelo Poder Público gratuitamente (e fica a dica para que essas, de fato, ocorram).
Estimular a criatividade das crianças, o bom convívio, o respeito mútuo, a atividade física fizeram parte de gerações passadas e precisam fazer parte das atuais e futuras.
Senão teremos ‘mentes engessadas’ pelas telas, muitas vezes adoecidas por ansiedade, depressão, tensões musculares, problemas de visão, audição e por aí vai. A lista de problemas de saúde física e psicológicos que o uso sem critérios do celular causam só aumenta.
A nós, pais, cabe equilibrar os divertimentos reais e os virtuais dos pequenos e pequenas, já que, as “fraturas mentais” às crianças, que podem ocorrer pelo uso indiscriminado das telas, não se restabelecem com gesso…
Natália Tiezzi





