Ilha e velhos pedestais
Crônica do autor

E aquela sensação de paz, beleza, carícia, aconchego, eu senti novamente no verde explodindo, no florir da natureza, na revoada livre das aves canoras, na reconstrução daquele chão, há um ano devastado pela enchente, com terra levada, árvores e flores arrancadas, deitadas, carregadas…
E tudo se refaz, se replanta, se recobre…
A ponte pênsil, bem mais abaulada, tem curva e balanço de embalar visitante maravilhado, diante do local privilegiado, dentro do perímetro urbano: uma dádiva incomparável da natureza, nossa ilha – Ilha São Pedro.

Nós, os autóctones, passamos anos sem a ver, não é mesmo? Rio-pardenses acomodados, sentados diante de um vídeo, calados, sem ar, sem movimentos, sem imaginação, aceitando verdades e mentiras, o bem e o mal, o belo e o horrível, sem direito à crítica, à discussão, à participação. Estamos nos alienando… Diante do vídeo, perdemos nossa identidade. Somos levados, sem reação…
E o que é nosso fica esquecido: natureza salvação, natureza inspiração… Logo, a ilha será reaberta ao público. Está em reconstrução.
Em dias úteis, a gente pode entrar, e conversar com jardineiros e pedreiros. Eu entrei.
Nem mais parece que a catástrofe por ali passou.
Doutor Nunes, o jurista, não rio-pardense, mas conterrâneo pela ação e coração, naquele logradouro deixou suor, energia, sorrisos, satisfação, exemplo na idealização e na obra de reconstrução.
E eu posso lhes contar o que vi da ponte: o rio está calmo, tranquilo, correndo límpido, sem marcas de poluição. Borbulha no seu correr alegre, pulando pedras e coçando o pé do moleque solitário, na praia acanhada.
E eu lhes conto que os barrancos voltaram a ser barrancos, com terra trans- portada em latas e carrinhos de mão, através da ponte abaulada. Terra: vinte caminhões! E a terra recobriu crateras, e raízes desvestidas, agarradas ao profundo, que resistiram ao impacto das águas. E a vegetação voltou a viçar. E nos barrancos, corações-de-iáiá, florzinhas vermelhas, rasteiras de ano inteiro começam a cobrir e a atapetar.
E eu lhes conto a ilha.
O João Cassiano, o conhecido João Jardineiro, que Pedro se chama, veio comigo conversar. E andamos por limpos e refeitos caminhos, circundando gramados e mais de duzentas árvores, recém-plantadas e já crescidas, protegidas por engradados, substituindo as desaparecidas. E fiquei admirado dos nomes anunciados, que me fizeram recordar um tempo criança: pitangueiras, tamarindeiro, jatobás, goiabeiras, entre tufos de palmas e folhagens multicores. E continuamos entre novos e exóticos jenipapos, ipês, quaresmeiras, magnólias, espatódias, jequitibás, pau-ferro, óleo-cabreúva, guarantãs, guatambus, candeias, aroeiras. Nas margens, bambus e chorões, que já se espelham nas águas. Entre tantas novidades, velhas árvores, sustentando enormes cipós, sobrevivem. Sobrevive, também, o sobreiro, com casca de cortiça, que não foi sacrificado com a construção de um telhado: atravessou-o.
Três mansas siriemas acompanham o movimento das enxadas dos dois jardineiros, comendo apressadamente minhocas desenterradas.
Jardineiros e pedreiros, cinco ao todo, refazem o desfeito, há meses: a casa do zelador já está terminada; o restaurante será fechado com portas e vitrais, com modernas toaletes e cozinha, emoldurado com jardineiras de gerânios…
João volta ao trabalho de jardinagem. Caminho mais um pouco. Anoto o observado.
No chão, como se vasos fossem, com plantas, identifico partes dos velhos pedestais das quatro estátuas que hoje estão na Praça XV. Conheci-os no Jardim do Artese. Contorno-os. Junto à terra, uma inscrição gravada. Limpo-a. Admiro- me. Encontro as outras três gravações. São nomes dos doadores dos pedestais, ou das preciosas esculturas italianas.
Com a emoção de um arqueólogo, diante de uma descoberta, limpo a terra das inscrições e leio uma a uma:
1.a) “Offerta do Pessoal do Foro da Comarca”.
2.a) “Offerta dos Sres. Coronel F. S. de Camargo, Ten. Coronel A. C. Machado e Marçal N. Dias”.
3.a) “Offertantes: João Ribeiro de Noronha, Cel. Militão V. Rodrigues, Major Francisco V. Rodrigues, Cap. Dermotho V. Rodrigues”.
4.a) “Offerta dos Sres. Coronéis José L. R. da Cunha e Luiz Th. de Andrade”.
Penso sugerir às autoridades municipais a recolocação destas peças, de grande valor histórico sob às esculturas da Praça XV de Novembro…
Feliz, deixo o pitoresco recanto.
Em agosto, a ilha estará reaberta.
Desligue o seu televisor, amigo, e vá passar uma tarde, ou fazer piquenique naquele logradouro. Reencontre a natureza e o humano esquecido que existe em você.
6/5/1978.
Crônica do Livro “E as Sementes Florescem…”





