CRONICAS RODOLPHO DEL GUERRA

Ignorando o assalto

Dona Luizinha ouviu o chute na lata de lixo. Saiu. Eram nove da noite

-Boa-noite, tia!

-Boa-noite!

Gentil e comunicativa, ela encarou o moço bem vestido, de branco, simpático, não o conhecendo.

-Mas quem é você?

-Eu sou de São Paulo… Estou hospedado aqui perto… Sabe, tia, eu morei com uma senhora idosa, que eu queria muito bem… Ela me lembra muito a senhora… Ela morreu nos meus braços.

-Que bons sentimentos e que gesto bonito o seu! Hoje, o mundo está perdendo o respeito: velho é trapo!… Eu pensei que você tivesse sido aluno, lá no “Euclides da Cunha”, onde eu trabalhei mais de trinta anos!… Os alunos me chamavam de tia.

-Não. Eu estou de passagem. Estou com fome… Aqui por perto tem algum bar?

-Não. Mas se você chegar no fim desta rua e subir pra esquerda, você chega na praça e lá você encontra muitos…

-Então, tchau, tia!

-Tchau, bem!… Vá com Deus!

Ele desapareceu. Na rua, o silêncio. Ninguém.

Dona Luizinha recolheu o lixo esparramado. Era preciso jogar água na calçada nodoada. Entrou, deixando a porta aberta. Quando voltava do quintal, com balde e vassoura, viu dois homens: um encostado na geladeira, outro no umbral da porta do quarto. Ela reconheceu o jovem de branco que lhe pedira informações. O outro era também jovem, bem trajado, com terno escuro, colete e gravata.

Sem palavras, calma, sem pensar no mal, ela observava ambos que olhavam admirados as velhas paredes e o pedaço de forro de pano desfeito da velha casa. No quarto, a riqueza da velha senhora estava sobre a cômoda e a cama: eram os famosos bombons e balas sobre bandejas, conhecidos internacionalmente, já levados para a Itália, Alemanha, Inglaterra…

Sem mexer em nada, desapontados no pobre ambiente, o mais moço gaguejou: A gente vai embora, tia… Mais tarde a gente volta…

-Não volta, não!… Eu vou dormir!… Eu estou muito cansada.

-Tá!… Tchau!

Os dois saíram. D. Luizinha nem viu o rumo que tomaram. Lavou a calçada.

Na cama, recordando o ocorrido, pensando em assaltos e violência, ela caiu em si. -Meu Deus!… Eram assaltantes!… E se eles me matassem por eu não ter nada? A funcionária aposentada começou a tremer. Chorando, pedia aos céus que o tempo corresse e trouxesse logo a manhã. Levantou-se para verificar se portas e janelas estavam bem fechadas…

A crise nervosa se avolumou no dia seguinte. Contando o ocorrido entre tremores e lágrimas, ela agradecia sua santa protetora, olhando a velha imagem.

-Foi Nossa Senhora da Aparecida, minha protetora e madrinha que me protegeu… Ela me deu calma, fazendo-me ignorar o que de mal estava acontecendo… Eu teria morrido de susto se eu percebesse que aquilo era um assalto!… De hoje em diante, eu só vou abrir a porta se eu souber quem está batendo!… Eu quero viver mais um pouco… Foi Nossa Senhora…

1/12/1983.

Crônica do Livro “ENQUANTO A NOITE NÃO VEM”

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