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Crimes contra a mulher: Psi. Aline L. Faria explica porque muitos homens não sabem lidar com o ‘não’

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Não é de hoje que mulheres sofrem com violências (nítidas ou veladas) praticadas por seus companheiros. Embora as leis estejam mais desenvolvidas e atualizadas acerca da proteção a essas vítimas, como a Lei Maria da Penha, por exemplo, de alguns anos para cá o que se vê é um aumento significativo de casos de crimes contra elas, principalmente feminicídio.

Grande parte deste casos, conforme constatados pelas próprias vítimas (quando essas conseguem sobreviver) ou por relatos de pessoas próximas, perícias, quando ocorre o feminicídio é que alguns homens cometem esses crimes pelo simples fato de terem dificuldades em saber lidar com o ‘não’, seja ele como um término de relacionamento ou como uma negativa de suas companheiras a algum ato/ação que queiram que pratiquem.

Para falar um pouco das causas emocionais (e que são muitas) para que homens cheguem a atitudes extremas e criminosas contra as mulheres por não saberem lidar com ‘nãos’, a reportagem entrevistou a psicóloga Aline de Lima Faria, que atua há duas décadas na área, e que destacou, com propriedade e experiência, também sobre como as mulheres podem identificar um abusador.

Ela observou, ainda, a necessidade destes homens em tratar suas condições emocionais que podem levar a atitudes de violência contra a mulher, observando que ainda há muita resistência, por parte deles, em buscar auxílio, inclusive por questões culturais (patriarcado/machismo).

“O ‘não’ pode ser sentido como desrespeito ou abandono, gerando raiva intensa em alguns homens”, observou a psicóloga. (Foto ilustrativa – Adobe Stock)

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Minha São José: Aline, quais são os principais motivos emocionais que estão levando os homens a cometer crimes e/ou violência contra a mulher?

Aline de Lima Faria: Muitos homens têm dificuldade de lidar com rejeição, frustração e perda de controle. O “não” pode ser sentido como desrespeito ou abandono, gerando raiva intensa. Em vez de lidar com isso emocionalmente, acabam reagindo com agressividade.

Quais os principais sinais que as mulheres podem detectar nestes homens com relação às violências?

Ciúme excessivo, necessidade de controlar tudo, dificuldade em aceitar limites, mudanças bruscas de comportamento (hora trata muito bem, hora desvaloriza), tentativas de afasta-la de outras pessoas, reações exageradas a pequenas situações.

Quando a mulher deve buscar auxílio psicológico em relação a esse tipo de problema na relação?

Quando percebe que está confundindo amor com sofrimento, justificando comportamentos agressivos ou sentindo medo, culpa ou perda de si na relação. O acompanhamento ajuda a restaurar a capacidade de perceber e também de nomear a violência.

E quando ela deve dar um basta nesta relação abusiva?

Quando há qualquer forma de violência (psicológica, emocional, física ou sexual). A repetição do padrão, sem responsabilização real do parceiro, indica risco. A integridade psíquica e física deve ser prioridade.

O que fazer quando as dependências emocionais/financeiras soam mais fortes que a ação da mulher contra violências e agressores?

Esse é um dos pontos mais difíceis. O caminho não precisa ser imediato, mas precisa começar, e isso pode ser por meio de busca a apoio psicológico, contar com pessoas de confiança (rede de apoio), se organizar aos poucos para ter mais autonomia e criar um plano de saída com segurança.

“O auxílio psicológico aos homens ajuda a entender melhor o que sentem, aprender a lidar com frustração, controlar impulsos e construir relações mais saudáveis”, afirmou Aline

O que orientaria aos homens que não sabem lidar com “não” em suas relações, principalmente término de relacionamentos e a sensação de posse à mulher?

Que ninguém é dono de ninguém. Ouvir um “não” faz parte de qualquer relação. É preciso aprender a lidar com frustração sem transformar isso em raiva ou controle.

É verdade que essas atitudes masculinas de posse, autoritarismo, misoginia podem esconder problemas/traumas de infância, culturais?

Sim. Muitos aprendem desde cedo que precisam controlar, ser fortes ou “não perder”. Também podem ter vivido relações difíceis na infância. Mas isso não justifica a violência, apenas ajuda a entender.

Homens ainda têm resistência a buscar ajuda psicológica? Por quê?

Sim. Muitos ainda veem terapia como fraqueza ou têm dificuldade de falar sobre sentimentos. Como destaquei, foram ensinados a “aguentar tudo sozinhos”.

Em que esse auxílio psicológico, psiquiátrico pode ajudar estes homens?

Ajuda a entender melhor o que sentem, aprender a lidar com frustração, controlar impulsos e construir relações mais saudáveis.

O que orientaria a nós, pais, para educar nossos filhos e filhas quanto à essa questão ao respeito pela mulher e por suas decisões?

Ensinar respeito desde cedo; Mostrar que sentir não é fraqueza; Ensinar a lidar com frustração; Não reforçar ideias de posse ou controle e dar exemplo de relações saudáveis

Por fim, e neste contexto, por que o amor próprio da mulher incomoda tanto alguns homens?

Porque o amor próprio coloca limites. Uma mulher que se valoriza tende a não aceitar controle, desrespeito ou relações desequilibradas. No fundo, não é o amor próprio da mulher que incomoda. É o que ele exige do outro, maturidade, respeito e capacidade de lidar com limites.

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