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Dr. Marcelo Galotti destaca a Hanseníase e alerta sobre prevenção e enfrentamento do preconceito

Em alusão à Campanha Janeiro Roxo, a Santa Casa de Misericórdia Hospital São Vicente destaca entrevista com o médico infectologista, Dr. Marcelo Luiz Galotti Pereira, que abordou temas relevantes sobre a Hanseníase.

É importante que a população saiba o que é a Doença, a transmissão, os sintomas, além do diagnóstico e tratamento. Entretanto, também é imprescindível destacar a prevenção e o enfrentamento do preconceito.

“É essencial reforçar que a Hanseníase tem cura, é pouco transmissível, não é hereditária e não representa castigo ou punição. A pessoa em tratamento não transmite a doença e que o diagnóstico precoce evita deformidades e incapacidades. O preconceito, na maioria das vezes, nasce mais do medo e da desinformação do que da doença em si”, afirmou Dr. Galotti.

Confira a entrevista e tire suas dúvidas.

O que é e quais as características da Hanseníase?

Hanseníase é uma doença infecciosa causada por uma bactéria, a Mycobacterium leprae, fundamentalmente causa uma doença crônica que acomete principalmente pele e sistema nervoso periférico e, quando não tratada adequadamente, é uma doença progressiva e até mutilante.

Como ocorre a transmissão?

É transmitida de pessoa a pessoa por secreções emitidas pela pessoa doente que penetram no organismo da pessoa receptora, particularmente pelas vias aéreas superiores, particularmente mucosa nasal. Alguns autores admitem como possibilidade a mucosa ocular e soluções de continuidade da pele.

Como são as alterações de pele na Hanseníase?

Na fase inicial, ataca a pele com manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas, principalmente na face e membros, com queda de pelos, ausência de sudorese no local, que não coça e não dói. Nessas manchas, ocorre a destruição dos nervos do sistema nervoso periférico, fazendo com que no local ocorra alteração de sensibilidade ao tato, ao calor e ausência de dor.

Existem outros sintomas além das alterações de pele?

Com a evolução da doença, podem surgir dores e sensações semelhantes a choques elétricos nos membros, além de formigamentos, fisgadas e sensação de agulhadas ao longo dos nervos dos braços e das pernas. Em fases mais avançadas, podem ocorrer febre, inchaço e dor nas articulações, ressecamento das mucosas, especialmente dos olhos, inchaço das mãos e dos pés, além do aparecimento de úlceras e feridas nos pés e nas pernas, bem como caroços e nódulos distribuídos pelo corpo. As lesões de pele podem surgir em qualquer região, porém apresentam locais de predileção, como lóbulos das orelhas, cotovelos, joelhos, glúteos e extremidades do corpo, especialmente mãos e pés.

Quando o paciente deve procurar auxílio e onde?

O aparecimento de manchas na pele não é uma ocorrência normal, excetuando-se aquelas presentes desde o nascimento. Diante de qualquer mancha diferente, é importante procurar atendimento médico para avaliação e diagnóstico. De modo geral, um médico clínico está apto a levantar a suspeita e realizar o diagnóstico inicial. Dermatologistas e Infectologistas, por sua vez, possuem maior experiência no manejo dessa patologia e podem contribuir precocemente para a confirmação diagnóstica e condução do tratamento.

“Em nosso país, a Hanseníase ainda é importante problema de saúde pública. Em média, o Brasil registra entre 20 e 25 mil casos novos por ano”, observou o médico infectologista, Dr. Marcelo Galotti (Foto: Santa Casa Hospital São Vicente)

Como é realizado o diagnóstico?

O diagnóstico da Hanseníase é predominantemente clínico, baseado na avaliação das lesões de pele e das alterações de sensibilidade. Para essa investigação, utilizam-se instrumentos simples, desenvolvidos especificamente para pesquisa de sensibilidade, como objetos pontiagudos, pincéis e materiais metálicos, que permitem avaliar alterações de tato, dor e temperatura na pele. Um sinal clínico importante é o espessamento de nervos periféricos acometidos pela bactéria, sendo o espessamento do nervo cubital, no braço, um achado bastante característico da doença.

E o diagnóstico laboratorial?

Além da avaliação clínica, podem ser realizados exames laboratoriais, como o exame direto de material obtido por escarificação de lesões de pele, mucosas ou pela coleta de serosidade por punção em locais onde a presença do bacilo é mais frequente, como lóbulos das orelhas, cotovelos e joelhos. Por fim, o exame histopatológico, por meio de biópsia, permite não apenas a confirmação bacteriológica, mas também a classificação das formas clínicas da doença, informação fundamental para a definição do tratamento e para a avaliação do potencial de transmissão.

Como acontece o tratamento? Por quanto tempo? É gratuito?

O tratamento da Hanseníase é realizado por meio da associação de medicamentos, incluindo antibióticos e quimioterápicos, administrados por um período de seis meses a um ano, conforme a forma clínica da doença, que pode ser paucibacilar ou multibacilar. Trata-se de um tratamento completamente gratuito, com uma característica terapêutica bastante relevante: poucos dias após o início da medicação, o paciente deixa de transmitir a doença, o que reforça a importância do diagnóstico e do tratamento precoces.

A Hanseníase ainda é considerada um problema de saúde pública? Quantos casos ocorrem anualmente no mundo?

Sim, ela ainda é considerada um problema de saúde pública, tanto em nível mundial quanto, especialmente, no Brasil. Embora, no ano 2000, a doença tenha deixado de ser classificada como emergência em saúde pública global, segundo critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) — definidos por uma prevalência inferior a um caso por 10 mil habitantes —, isso não significa que a doença tenha sido erradicada. Atualmente, ainda surgem cerca de 200 mil casos novos por ano no mundo. Os países com maior carga da doença são Índia, Brasil e Indonésia, que juntos respondem por aproximadamente 75% dos casos globais.

E como são estes números no Brasil?

Conforme dito anteriormente, o Brasil junto com Índia e Indonésia responde aproximadamente por 75% de todos os casos do mundo. No cenário mundial em número absoluto é o segundo país em casos novos, perdendo apenas para a Índia. Em números relativos é o primeiro, já que a Índia tem pouco mais de 1,5 bilhão de habitantes, enquanto o Brasil tem pouco mais de 210 milhões de habitantes. Em relação as Américas, o Brasil é disparado o primeiro país em casos novos tanto em números absolutos quanto em números relativos. Em nosso país, a Hanseníase ainda é importante problema de saúde pública. Em média, o Brasil registra entre 20 e 25 mil casos novos por ano, variando conforme o período analisado, com taxa de detecção considerada alta pela Organização Mundial de Saúde. Persiste casos em crianças, o que indica transmissão ativa, além de diagnósticos tardios, frequentemente já com incapacidade física no momento. A distribuição da doença é desigual no território nacional com maior concentração na região Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste. Os Estados com maiores taxas são: Mato Grosso, Pará, Maranhão, Tocantins e Rondônia, onde a hanseníase permanece com taxas de casos novos em níveis importantes.

Existe uma explicação para esta indesejável situação?

Entre os fatores que explicam a persistência da doença estão as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, o estigma social, o baixo reconhecimento precoce dos sintomas e as falhas na vigilância ativa dos contatos, o que mantém a cadeia de transmissão e leva a incapacidades físicas estabelecidas. Em resumo, a hanseníase não foi erradicada no mundo, permanece relevante em países endêmicos e continua sendo, no Brasil, uma das principais doenças infecciosas negligenciadas, especialmente em áreas hiperendêmicas, com impacto sanitário, social, funcional e econômico.

Há como prevenir a Hanseníase?

Sim e principalmente através de: * Diagnóstico precoce dos casos – O diagnóstico precoce é fundamental. O início imediato do tratamento interrompe a transmissão em poucos dias. Um ponto-chave é que pessoas em tratamento não transmite a doença. * Tratamento adequado – O tratamento é feito com poliquimioterapia (PQT). O uso correto dos antibióticos, fornecidos gratuitamente pelo SUS, garante a adesão completa ao esquema terapêutico e evita o abandono do tratamento. A cura do paciente rompe a cadeia de transmissão. * Exame e vigilância de contatos – Devem ser avaliadas todas as pessoas que moram ou convivem com o paciente, pois os contatos apresentam maior risco de adoecer. Recomenda-se exame dermatoneurológico anual por cinco anos, além de orientação quanto aos sinais precoces da doença. * Vacinação com BCG – A vacina BCG deve ser aplicada em contatos de pessoas com hanseníase: uma dose quando não houver cicatriz vacinal ou quando houver apenas uma cicatriz. A BCG não impede totalmente a doença, mas reduz o risco e a gravidade das formas clínicas. * Quimioprofilaxia para contatos – A administração de dose única de rifampicina (SDR) em contatos pode reduzir o risco de desenvolver hanseníase em cerca de 50 a 60%. * Educação em saúde e combate ao estigma – É fundamental informar a população de que a Hanseníase tem cura, o tratamento é gratuito e a doença não é altamente contagiosa. Essas ações reduzem o atraso no diagnóstico e o abandono do tratamento. * Melhoria das condições de vida – A redução da aglomeração domiciliar, da pobreza e das condições precárias de moradia, aliada à melhoria do acesso aos serviços de saúde e ao saneamento básico, contribui para o controle da doença. Em resumo é necessário diagnosticar precocemente, tratar corretamente, examinar e vacinar contatos quando indicado, utilizar rifampicina em dose única, investir em educação em saúde, combater o estigma e melhorar as condições sociais.

A partir de um diagnóstico positivo, como lidar com o paciente? É necessário separar talheres, copos e toalhas?

Não. A partir do diagnóstico positivo de Hanseníase, não é necessário separar talheres, copos, toalhas ou roupas, nem restringir o convívio social do paciente. Teoricamente, a transmissão da hanseníase ocorre por vias respiratórias, através de secreções do nariz e da boca, o que caracterizaria um risco por gotículas. No entanto, a transmissão é difícil, pois exige contato íntimo e prolongado com pessoa não tratada, além da necessidade de que o indivíduo exposto seja susceptível à doença. A hanseníase não é transmitida por aperto de mão, abraço, uso compartilhado de talheres, roupas ou por contatos casuais. Além disso, após o início da poliquimioterapia (PQT), o paciente deixa de transmitir a doença, não sendo necessário qualquer tipo de isolamento domiciliar ou hospitalar. Nesses casos, são suficientes as precauções padrão, como a higiene adequada das mãos e o uso de luvas quando houver contato com secreções. O uso de máscara cirúrgica não é rotineiro, sendo indicado apenas em situações específicas, como presença de tosse produtiva ou infecção respiratória associada.

Como enfrentar o preconceito e conscientizar a população acerca da doença?

O enfrentamento do preconceito e a conscientização da população são tão importantes quanto o tratamento em si. Para lidar com o estigma associado à hanseníase, algumas atitudes são fundamentais. Primeiramente, é importante substituir o termo “lepra” por “Hanseníase” e, sempre que possível, explicar essa mudança. “Lepra” é uma denominação historicamente carregada de estigma e preconceito, devendo ser evitada. É essencial reforçar que a Hanseníase tem cura, é pouco transmissível, não é hereditária e não representa castigo ou punição. Em segundo lugar, é necessário investir em informações claras e simples. A população precisa saber que a doença tem cura, o tratamento é gratuito pelo SUS, a pessoa em tratamento não transmite a doença e que o diagnóstico precoce evita deformidades e incapacidades. Essas informações devem ser levadas a locais estratégicos, como rádios, eventos comunitários, escolas, igrejas, associações comunitárias e unidades básicas de saúde. O preconceito, na maioria das vezes, nasce mais do medo e da desinformação do que da doença em si.

Por Natália Tiezzi – Assessoria de Comunicação Santa Casa/SAVISA

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