ALIMENTAÇÃOCIDADEDESTAQUESAÚDE

Aos ‘pós 40 anos’: Nutricionista funcional Fábio Tavella fala sobre alimentação, hormônios e envelhecimento saudável

Você, que chegou aos 40 anos ou já passou deles, deve ter percebido muitas mudanças, principalmente fisiológicas, e isso acontece tanto para as mulheres, quanto para os homens. Questões ligadas ao desequilíbrio hormonal afetam ambos os sexos, entretanto podem ser mais acentuadas às mulheres, com a perimenopausa e a menopausa, todavia também acomete os homens, podendo ocorrer uma redução gradual da testosterona, acompanhada por alterações na composição corporal, disposição, libido, força muscular e metabolismo.

Entretanto, de acordo com o nutricionista funcional Fábio Tavella, olhar para esse processo apenas como uma consequência inevitável do envelhecimento é simplificar uma questão muito mais complexa.

Em entrevista às mídias Minha São José, Fábio falou sobre a importância da nutrição funcional nesta fase da vida e também sobre práticas, além da alimentação, que podem contribuir à melhora de sintomas clássicos da menopausa nas mulheres e da andropausa, nos homens. Ele observou, ainda, os alimentos como aliados junto à reposição hormonal, entre outros aspectos, muitas vezes neglicenciados por quem já passou dos 40, 50 anos, como a exposição cotidiana a substâncias químicas ambientais.

“A nutrição funcional parte da compreensão de que os hormônios não funcionam de maneira isolada. Eles respondem ao ambiente metabólico em que o organismo está inserido. Um corpo sedentário, com excesso de gordura visceral, resistência à insulina, inflamação, privação de sono, alimentação inadequada e exposição constante a substâncias químicas não oferece as mesmas condições metabólicas de um organismo ativo, nutrido e metabolicamente equilibrado. E um dos grandes problemas dessa fase da vida é justamente a combinação entre sedentarismo e perda progressiva de massa muscular. O músculo participa ativamente do metabolismo da glicose e da utilização de energia. Quando uma pessoa passa anos sem atividade física e, ao mesmo tempo, consome pouca proteína, aumenta a tendência à perda de massa muscular e ao ganho de gordura corporal. Essa alteração pode favorecer resistência à insulina, inflamação e piora da composição corporal, criando um ambiente metabólico desfavorável à saúde hormonal”, explicou.

O nutricionista mencionou outro fator importante, que é a qualidade da alimentação. “O excesso de açúcar, doces, refrigerantes, bebidas açucaradas, farinhas refinadas, pães, massas, biscoitos e produtos ultraprocessados aumenta a carga glicêmica da alimentação. Mesmo alimentos que não apresentam sabor doce podem ser rapidamente convertidos em glicose pelo organismo. Quando esse padrão se torna habitual, pode favorecer hiperinsulinemia, resistência à insulina, aumento da gordura visceral e inflamação de baixo grau. Também precisamos olhar para a ingestão adequada de proteínas”, alertou.

Fábio disse que, com o passar dos anos, principalmente nesta fase após os 40, preservar massa muscular deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser uma estratégia de saúde. “Carnes, peixes, ovos, leite e derivados e outras fontes proteicas adequadas ao padrão alimentar individual fornecem aminoácidos fundamentais para manutenção e recuperação dos tecidos. Uma alimentação pobre em proteínas e baseada predominantemente em carboidratos refinados pode favorecer perda muscular, menor saciedade e maior dificuldade de controle metabólico”.

 “Envelhecer é inevitável. Envelhecer perdendo saúde, força, autonomia e qualidade de vida não precisa ser encarado como inevitável”, afirmou Fábio Tavella

EXPOSIÇÃO A SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS AMBIENTAIS

Ele informou, ainda, sobre as substâncias químicas ambientais, aspecto frequentemente negligenciado. “O organismo pode entrar em contato com diversos compostos potencialmente interferentes do sistema endócrino, incluindo alguns fitalatos, bisfenóis presentes em determinados plásticos e embalagens, pesticidas, compostos perfluorados (PFAS), retardantes de chama e outros contaminantes ambientais. Não se trata de afirmar que toda exposição provocará doença, mas de reconhecer que a exposição crônica e cumulativa faz parte do ambiente moderno e merece atenção. Reduzir exposições desnecessárias pode fazer parte de uma estratégia de cuidado metabólico”.

Fábio disse que o mesmo raciocínio vale para álcool, tabagismo, privação de sono e estresse crônico. “O organismo que dorme pouco, vive constantemente sob estresse, não se movimenta, consome excesso de álcool e mantém uma alimentação rica em ultraprocessados está submetido a um conjunto de fatores capazes de prejudicar sua saúde metabólica. Não existe suplemento capaz de compensar completamente esse cenário”.

ALIMENTAÇÃO ALIADA JUNTO À REPOSIÇÃO HORMONAL

O nutricionista também tocou num ponto que ainda é tabu, principalmente às mulheres: a reposição hormonal. “Precisamos abandonar algumas ideias antigas sobre ela. Durante muitos anos, o medo dos hormônios fez com que muitas mulheres chegassem à menopausa acreditando que deveriam simplesmente suportar sintomas, perda de massa óssea, alterações importantes do sono, ondas de calor, perda de qualidade de vida e outras consequências da transição hormonal. Hoje, sabemos que a decisão sobre terapia hormonal precisa ser individualizada, levando em consideração idade, momento da menopausa, sintomas, histórico pessoal e familiar, fatores de risco e objetivos terapêuticos. Para mulheres adequadamente selecionadas, principalmente quando iniciada próxima à transição menopausal, a terapia hormonal pode apresentar uma relação benefício-risco favorável. A terapia sistêmica com estrogênio é eficaz para sintomas vasomotores e também protege contra a perda óssea que ocorre no início da menopausa”.

Entretanto, Fábio observou que isso não significa que reposição hormonal seja sinônimo de prevenção de todos os cânceres, diabetes ou doenças cardiovasculares, nem que seja indicada para todas as pessoas. “O conhecimento atual é mais sofisticado do que isso. Existem benefícios e riscos que dependem do tipo de hormônio, da combinação utilizada, da via de administração, da idade em que o tratamento é iniciado, do tempo de uso e das características individuais da paciente. Por exemplo, quando a mulher possui útero, o estrogênio sistêmico precisa ser acompanhado de proteção adequada do endométrio; já determinadas terapias podem apresentar diferenças importantes em relação aos riscos de trombose e câncer de mama”.

Fábio salientou que “a reposição hormonal, quando realmente indicada e conduzida por um médico capacitado em saúde hormonal e menopausa, não deve ser encarada simplesmente como um tratamento para “tirar sintomas”. Ela pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de preservação da saúde e da qualidade de vida, especialmente pela proteção óssea e pelo controle dos sintomas que interferem no sono, na atividade física e no bem-estar. A própria literatura atual reconhece que os benefícios e riscos precisam ser avaliados individualmente, e que não existe uma única conduta adequada para todas as mulheres”.

Sobre a alimentação, nesse contexto, o nutricionista disse que ela não compete com a medicina hormonal. “Pelo contrário: elas podem trabalhar juntas. A terapia hormonal, quando indicada, trata uma necessidade específica; a nutrição fornece os substratos necessários para o funcionamento celular, ajuda a controlar glicose e insulina, favorece a preservação da massa muscular, contribui para o controle da gordura visceral e fornece nutrientes importantes para ossos, músculos e metabolismo. A atividade física, especialmente o treinamento de força, completa esse processo. Estimular o músculo significa enviar ao organismo um sinal de preservação de massa magra, força e capacidade metabólica. Associada a uma alimentação adequada e, quando necessária, a uma abordagem médica hormonal individualizada, essa estratégia pode contribuir para que o envelhecimento seja acompanhado de mais autonomia e qualidade de vida”.

CUIDAR DA ALIMENTAÇÃO NÃO SIGNIFICA IMPEDIR O ENVELHECIMENTO, MAS ATRAVESSAR ESSA FASE COM MAIS SAÚDE

Fábio afirmou que a grande mensagem da nutrição funcional é que não devemos olhar para o hormônio isoladamente, mas para o organismo como um sistema integrado. A idade modifica a fisiologia, mas o estilo de vida pode determinar quanto dessas mudanças será bem tolerado ou agravado.

“Aos 40, 50 anos e além, cuidar da alimentação não significa tentar impedir o envelhecimento. Significa oferecer ao organismo matéria-prima, estímulo e condições metabólicas para atravessar essa fase com mais saúde. E, quando existe indicação médica, significa também deixar para trás o medo de terapias hormonais baseado exclusivamente em conceitos antigos e passar a discutir seus benefícios e riscos à luz do conhecimento científico atual. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como recuperar meus hormônios?”, mas “o que estou fazendo todos os dias que pode estar dificultando o funcionamento do meu organismo?”, observou.

E ele concluiu ressaltando que a resposta começa no prato, no músculo que deixamos de movimentar, no sono que negligenciamos, no excesso de açúcar que consumimos e também naquilo que colocamos em contato com nosso organismo todos os dias. “Envelhecer é inevitável. Envelhecer perdendo saúde, força, autonomia e qualidade de vida não precisa ser encarado como inevitável”.

error: Caso queira reproduzir este conteúdo, entre em contato pelo e-mail: minhasaojose@uol.com.br