Aos 92 anos, Monsenhor Denizar Coelho contou sua vida de fé, que também passou por Rio Pardo
Nesta semana, o Jornal “O Município”, de São João da Boa Vista, com reportagem assinada por Ana Laura Moreto, trouxe um pouco da história de fé de um dos religiosos mais conhecidos, queridos e respeitados da região, o Monsenhor Denizar Coelho, que completou 92 anos no mês de junho.
De acordo com a matéria, Denizar foi ordenado diácono em 14 de dezembro 1969 e se tornou padre em 31 de outubro de 1971, pela Diocese de Franca. Após, ele veio para São José do Rio Pardo, na Paróquia São José, sendo que em 1978, tornou-se pároco e permaneceu na função até 1991. Nesse período, construiu e reformou igrejas, atuou em pastorais e criou a Casa de Nazareth, voltada à formação humana e aos encontros pastorais. Também se dedicou à Pastoral Familiar e foi pioneiro no acompanhamento de casais durante a gestação.
Em 13 de dezembro de 1990, recebeu do papa João Paulo II o título de Monsenhor, que é uma honraria eclesiástica concedida pelo papa a sacerdotes da Igreja Católica em reconhecimento a serviços relevantes prestados à Igreja.
Já em 1991 recebeu a nova missão de assumir a Catedral São João Batista, em São João da Boa Vista. A chegada foi acompanhada de um grande desafio. A Catedral estava em obras havia anos e ainda precisava de muito trabalho. “Quando eu vim para São João, a Catedral fazia anos que estava consertando. E estavam só as paredes”, recordou.
A reforma se tornou uma das principais marcas de sua passagem pela cidade. Portas, estruturas, pinturas, relógio e outros elementos foram recuperados e também construídos durante sua atuação.
Além da Catedral, monsenhor Denizar também assumiu a administração da Fazenda Cachoeira, propriedade da Diocese de São João da Boa Vista. Por coincidência ou, como ele mesmo gosta de pensar, por coisa de Deus, a propriedade tinha o mesmo nome da fazenda onde nasceu e cresceu. Décadas depois, ele se viu novamente diante de uma fazenda, desta vez com a missão de recuperá-la e fazê-la prosperar.
Para começar a reconstruir o rebanho, monsenhor Denizar foi atrás de ajuda entre os fazendeiros da região. Conseguiu que dez produtores doassem uma vaca cada um e ainda recebeu um touro. “Cada um deu uma novilha. E um deu um touro. Já comecei com um boi e dez novilhas”, contou.
Aos poucos, o rebanho foi crescendo, enquanto ele também trabalhava na recuperação da propriedade. “Eu achei a fazenda com três vacas e uma com frieira. Deixei com 438 cabeças”, relembrou. Além da criação de gado, reformou o casarão centenário, construiu um Centro Pastoral e atuou na preservação da propriedade.

“EU ERA DANÇADOR, REZADOR E TRABALHAVA. E AINDA JOGAVA FUTEBOL”
Assim o Monsenhor Denizar descreveu um pouco de sua infância e juventude. Nascido em 20 de junho de 1934, na Fazenda Cachoeira, em Cristais Paulista (SP), é filho de José Jerônimo Coelho e Albertina Scalabrini Coelho.
A infância foi vivida na zona rural, em uma família grande e em uma rotina de muito trabalho. A mãe produzia em casa farinha de milho, de mandioca, pão e outros alimentos, enquanto os filhos ajudavam nas atividades da propriedade. “Minha mãe fazia farinha de milho. Ela mesma fazia. Farinha de mandioca. Era tudo fabricado em casa. Ralava a mandioca, fazia a farinha. Então, uma vida muito trabalhada, mas muito sadia”, lembrou.
A fé também esteve presente desde cedo. Durante a infância, em um período marcado pela Segunda Guerra Mundial, a família rezava o terço com frequência. Como Denizar já sabia ler, a mãe encontrou uma maneira de fazê-lo participar ainda mais das orações.
“Minha mãe falou: ‘você sabe ler para quê? Pega o livro e vai tirar o terço’. No primeiro mistério, no segundo mistério… Aí eu virei o ‘tirador’ de terço”, contou monsenhor, que a partir daquele momento, passou a conduzir as orações da família.
Mas a infância não era feita apenas de trabalho e religião. Denizar também jogava futebol e gostava de dançar nos bailes realizados nas fazendas da região. “Eu era dançador, rezador e trabalhava. E ainda jogava futebol”, contou, entre risos.
Na juventude, começou a participar da Congregação Mariana e a cantar nas missas. Aos poucos, porém, passou a questionar qual seria seu caminho. Ao mesmo tempo, o pai já pensava em seu futuro e chegou a oferecer a lavoura caso quisesse se casar. Mas Denizar sentia que precisava buscar outro caminho.
A decisão de seguir o sacerdócio começou a tomar forma depois de uma visita de missionários no bairro. Um deles falou sobre Cristo chamar jovens para o sacerdócio, mas comentou que muitos não aceitavam o convite. O jovem Denizar ficou especialmente tocado pela fala e se imaginou ajudando a preencher aquele vazio. “Eu fiquei com dó do Cristo. Você acredita? ‘Coitadinho! Vou ter de ajudar ele. Acho que, de certa forma, eu estava com dó de mim também”, disse, olhando hoje para aquela lembrança com bom humor.
A partir daquele momento, decidiu mudar de vida para seguir a vocação religiosa. Aos 22 anos, em 25 de fevereiro de 1957, deixou a Fazenda Cachoeira e entrou para o Seminário Maria Imaculada, em Ribeirão Preto. A formação foi longa e como havia estudado apenas o ensino primário, precisou completar os estudos antes de seguir para Filosofia e Teologia. Passou por Ribeirão, Brodowski, Aparecida e São Paulo, além de estudar Psicologia em Mogi das Cruzes. A mudança da vida na fazenda para o seminário também exigiu adaptação.
“Minha mãe cozinhava muito bem. Era um ‘farturão’. No seminário, a comida era diferente demais. Eu passei muita fome porque não estava acostumado”, lembrou.

UM SEMPRE CONSELHEIRO À COMUNIDADE
Sua atuação também ultrapassou as atividades administrativas e religiosas. Durante anos, monsenhor Denizar atendeu pessoas, acompanhou famílias, crianças, jovens e idosos; além de realizar programas de rádio e televisão, palestras e orientações. O conhecimento em Psicologia, somado à experiência sacerdotal, fez com que muitas pessoas buscassem seus conselhos em momentos importantes da vida. Foi assim que ganhou, carinhosamente, o título de “Apóstolo da Família”.
Talvez seja justamente essa capacidade de ouvir, aconselhar e acolher que explique o carinho conquistado ao longo dos anos. Mais do que o sacerdote que esteve à frente da Catedral e participou de grandes obras, monsenhor Denizar se tornou para muitas pessoas alguém a quem recorrer quando era preciso parar, conversar e buscar um novo caminho.
Especialmente em Rio Pardo, “Padre Denizar”, como até hoje é conhecido, auxiliou muitos ao caminho da fé, da oração e dos novos caminhos em Cristo. Sempre quando por aqui está é recebido com muito carinho pelos rio-pardenses, pela comunidade católica, que o tem não apenas como exemplo sacerdotal, mas de vida!
Com informações da repórter Ana Laura Moreto, a quem o Minha São José parabeniza pela excelente reportagem ao tradicional Jornal “O Município”





