Alzheimer: Gerontóloga Letícia S. Santos destaca a importância da estimulação/reabilitação cognitiva aos pacientes
Entrevista e texto: Natália Tiezzi
Quando se fala em Doença de Alzheimer logo se vem à mente o esquecimento, que é um dos sintomas mais evidentes e, a partir do diagnóstico pode, cada vez mais, comprometer a rotina do paciente. Entretanto, na Gerontologia, há uma área específica que contribui ao tratamento da doença: a estimulação e reabilitação cognitiva, que será detalhada pela gerontóloga Letícia Semensato Santos.
Em entrevista às mídias Minha São José, ela destacou como são realizadas as sessões que objetivam ativar, manter, melhorar e estimular a memória, a atenção,a linguagem, o raciocínio e funções executivas por meio de atividades direcionadas e significativas.
Além disso, ela também explicou quando se deve ficar atento aos esquecimentos, principalmente entre pessoas com mais de 65 anos, além de como identificar que o paciente necessita apoio de um gerontólogo.
Letícia falou, ainda, sobre prevenção ao esquecimento, que pode e deve começar bem antes dos 60 anos, inclusive por meio da alimentação, imprescindível para quem busca envelhecer com qualidade.

Por fim, a gerontóloga orientou como familiares e cuidadores devem lidar com o paciente quando ele começa a ter os esquecimentos, que podem ou não estar relacionados ao Alzheimer.
Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Minha São José: Letícia, atualmente,vamos iniciar falando um pouco sobre o Alzheimer. Atualmente, qual é a idade mais acometida pela doença?
Letícia Semensato Santos: A Doença de Alzheimer acomete principalmente pessoas a partir dos 65 anos, sendo a idade, o principal fator de risco para o seu desenvolvimento. A incidência aumenta progressivamente com o avanço da idade, chegando a dobrar a cada cinco anos após essa faixa etária. Observa-se maior concentração de casos entre 70 e 80 anos, com prevalência ainda mais elevada em indivíduos acima dos 80 anos. Estima-se que, por volta dos 70 anos, cerca de 3% das pessoas possam apresentar algum tipo de demência, enquanto aos 85 anos esse número pode chegar a aproximadamente 25%. Embora exista o chamado Alzheimer precoce, que ocorre antes dos 65 anos, ele é menos comum, representando uma pequena parcela dos casos.
A partir de que idade devemos ficar atentos aos esquecimentos?
Devemos ficar atentos à frequência e aos impactos que os esquecimentos podem interferir na rotina. Esquecimentos ocasionais, como por exemplo, não lembrar onde guardou objetos ou de nomes momentaneamente podem ser considerados normais. Porém, quando eles aparecem com mais frequência, são progressivos e começam a interferir na rotina, como repetir várias vezes a mesma informação, se perder em lugares conhecidos ou ter dificuldade para realizar tarefas habituais merecem mais atenção e uma avaliação por um profissional capacitado. Mas não podemos deixar de lembrar que a partir dos 60 anos é importante notar com mais atenção os esquecimentos, pois é nessa fase que ocorrem as mudanças normais do processo de envelhecimento cerebral. Vale destacar, ainda, que os lapsos de memória leves podem aparecer antes disso, especialmente em situações de estresse, sobrecarga ou falta de estímulo, e nem sempre indicam um problema.
Como identificar que a pessoa necessita de um acompanhamento com gerontólogo a partir destes esquecimentos?
É importante observar quando os esquecimentos deixam de ser algo pontual e passam comprometer a rotina. Alguns sinais merecem uma atenção maior, como por exemplo, quando a pessoa começa a repetir as mesmas perguntas sem perceber, esquece de compromissos importantes frequentemente, apresenta dificuldade para acompanhar conversas e para realizar tarefas do dia a dia, como organizar contas ou utilizar objetos habituais, pode haver um prejuízo além do esperado. Outro sinal importante para observar é em relação a mudança de comportamento, como irritabilidade, apatia ou isolamento, que também podem estar associadas a esquecimentos mais significativos. Nesses casos, o acompanhamento com um gerontólogo é fundamental, já que não avaliamos somente a memória, mas também a funcionalidade, a rotina, os estímulos cognitivos e os aspectos emocionais e sociais. Vale ressaltar que mais do que o esquecimento em si, o que realmente importa é o quanto ele interfere na autonomia e na qualidade de vida do idoso.
Em que se baseia o tratamento através da estimulação/reabilitação cognitiva?
A estimulação cognitiva tem como objetivo ativar, manter e melhorar as funções cognitivas através de atividades direcionadas e significativas. Na prática, são propostas intervenções que estimulam a memória, atenção, linguagem, raciocínio e funções executivas, utilizando exercícios como jogos educativos, leitura, escrita, associação de ideias e resolução de problemas. A repetição e o treino estruturado também desempenham um papel fundamental, pois contribuem para o fortalecimento das conexões neurais, sempre respeitando o ritmo e o nível cognitivo de cada indivíduo. Além disso, a reabilitação cognitiva é baseada na individualização do cuidado, considerando a história de vida, rotina, interesses e necessidades de cada idoso que proporciona mais eficaz e favorece o engajamento. Nela ensina-se a utilização de estratégias compensatórias, com o objetivo de promover maior autonomia no dia a dia. De modo geral, a estimulação cognitiva é um tratamento que vai além do simples “treino do cérebro”, ela busca promover a qualidade de vida, a independência e o bem-estar, tanto na prevenção quanto no declínio cognitivo.
Por quanto tempo esse tratamento é realizado em pessoas com diagnóstico de esquecimentos/Alzheimer?
O tratamento por estimulação cognitiva em pessoas com diagnóstico de Doença de Alzheimer não possui um tempo fixo e pré-determinado, pois depende da resposta individual de cada paciente, o estágio que doença se encontra e quais são os objetivos terapêuticos a serem desenvolvidos. Contudo, a estimulação cognitiva não é um tratamento com início, meio e fim definidos. Isso ocorre porque o objetivo principal não é a cura, mas sim a desaceleração do declínio cognitivo e a preservação da autonomia pelo maior tempo possível. De tal modo, o tratamento pode se estender por meses ou até anos, sendo acrescentado à rotina de cuidado da pessoa com Alzheimer. Quanto mais precoce e consistente for a intervenção, maiores serão os benefícios ao longo do tempo.
Como esse tratamento é realizado em seu consultório? O que a Dra. utiliza para estes estímulos?
Meu acompanhamento com o idoso se inicia por uma avaliação multidimensional, que permite compreender de forma ampla suas condições cognitivas, funcionais e emocionais. A partir dessa avaliação, é possível identificar tanto os déficits quanto as habilidades preservadas, o que é fundamental para a elaboração de um plano de intervenção individualizado, respeitando as necessidades e potencialidades de cada pessoa. Nas sessões de estimulação cognitiva, utilizo jogos e atividades educativas que estimulam diferentes funções cognitivas, como memória, atenção, linguagem e raciocínio, de maneira dinâmica e significativa. Além disso, trabalho na construção de estratégias compensatórias, auxiliando o idoso a encontrar formas práticas de lidar com suas dificuldades no dia a dia, promovendo mais autonomia, segurança e qualidade de vida.

Quais os objetivos deste tratamento? Pacientes relatam melhoras?
O principal objetivo da estimulação ou reabilitação cognitiva é manter e potencializar as funções cognitivas pelo maior tempo possível, tanto no diagnóstico de alguma demência como para o acompanhamento para prevenção. Não se objetiva curar o esquecimento, mas em preservar as habilidades, desacelerar a evolução da doença e promover mais qualidade de vida e bem estar ao idoso. Também tem como objetivo estimular a memória, o raciocínio, a linguagem, orientação do tempo, a autonomia, melhora da autoestima, socialização e autoconfiança. Auxilia na redução dos sintomas emocionais, como depressão, ansiedade e apatia. Em relação aos relatos de melhora, muitos idosos e familiares percebem benefícios sim, principalmente nas fases iniciais e moderadas.Eles relatam que às vezes os idosos não voltam a ter a memória como antes, mas passam a se lembrar melhor de algumas informações do cotidiano, conseguem se organizar com mais facilidade, manter conversas por mais tempo ou apresentar menos confusão em determinadas situações. Além disso, relatam que percebem estabilidade no quadro, o que podemos considerar um resultado positivo em conseguir manter as funções por mais tempo em doenças progressivas. Ainda se observa melhoras no humor, mais engajamento nas atividades do dia a dia. Por esse motivo, devemos considerar a estimulação cognitiva como uma ferramenta essencial dentro do cuidado, atuando não só na cognição, mas na pessoa como um todo.
É possível prevenir o esquecimento ou estimular a nossa memória antes dos 60+? Como?
Sim, não é só possível como é essencial estimularmos a nossa memória em qualquer idade e quanto antes iniciar, melhor. O cérebro apresenta mudanças naturais, durante toda a vida, mas a neuroplasticidade tem a capacidade de se adaptar a essas alterações, por isso é possível estimular e prevenir as perdas cognitivas antes dos 60 anos. O primeiro ponto para esse estímulo é manter o cérebro ativo, com atividades simples, como fazer leitura, treinar a escrita, fazer jogos, alterar pequenas tarefas na rotina, aprender novos idiomas, instrumentos musicais, desafiar a mente e fortalecer as conexões neurais. Devemos também praticar exercício físico regularmente que auxilia na melhora da circulação sanguínea cerebral, o que impacta diretamente na memória e na concentração. Além disso, o sono também tem um papel importante na nossa memória, já que é durante o descanso que o cérebro organiza e armazena as informações recebidas durante o dia. A ansiedade, o estresse e a sobrecarga prejudicam muito na capacidade de lembrar, por isso são necessários os momentos de descanso e lazer. E por último outro ponto importante é a alimentação.
E como a alimentação pode ser uma aliada à memória? Quais alimentos devemos consumir?
Sim, a alimentação pode ser uma grande aliada a memória, por isso uma dieta equilibrada auxilia no raciocínio, na concentração e ainda na prevenção de doenças neurodegenerativas. Alguns nutrientes trazem uma função fundamental nesse processo, como os antioxidantes, que são encontrados em frutas vermelhas, uva e cacau, ajudam a proteger o cérebro contra o envelhecimento precoce, o ômega-3, presente em alimentos como salmão, sardinha, linhaça e chia, que auxilia na comunicação entre os neurônios. A vitamina E, encontrada em castanhas, amêndoas e abacate, também exerce um papel importante na proteção das células cerebrais e as vitaminas do complexo B, encontradas em ovos, carnes e grãos integrais, são essenciais para o bom funcionamento do sistema nervoso. Vale ressaltar que o consumo excessivo de açúcar, alimentos ultraprocessados e gorduras ruins pode prejudicar a saúde cerebral.
Para finalizar, como familiares e cuidadores devem lidar com o paciente quando ele começa a ter esquecimentos,já que a população está envelhecendo e cada vez mais a família ou profissionais se deparam com quadros como este em pessoas próximas ou de convivência.
A forma como os familiares e/ou cuidadores reagem aos esquecimentos iniciais faz toda diferença na evolução do quadro como no bem-estar emocional. É muito importante ter paciência, acolher, ter empatia e validar os sentimentos do idoso, mesmo quando ele se apresenta confuso. Deve-se compreender que os esquecimentos não precisam ser tratados com correções, críticas e até mesmo com cobranças, já que podem gerar muita insegurança, frustrações e até o isolamento do idoso. O primeiro passo quando se percebe esses esquecimentos frequentes e com intensidade significativa é buscar profissionais qualificados para avaliar e investigar essas queixas para possível diagnóstico e tratamento correto. Manter uma rotina é fundamental, pois proporciona segurança e previsibilidade. Horários regulares para as refeições, sono e atividades facilitam a orientação e reduz a ansiedade. E o uso de recursos externos também auxiliam nos esquecimentos, como uma agenda, bloco de notas, lembretes visuais, entre outros recursos que deem certo para a pessoa. Outro ponto importante é na comunicação, ela deve ser simples, clara e objetiva. Evite interromper e de um tempo para que o idoso possa responder. Procure usar frases curtas, afirmativas e quando for necessário repetir, procure falar com as mesmas palavras ditas anteriormente. Incentive a independência, sempre que possível e o que não for colocar o idoso em situação de risco, permita que ele faça as tarefas pequenas e da rotina, isso vai contribuir para a autoestima e preservar as habilidades por mais tempo. O excesso de ajuda pode sem intenção, mas acelerar a perdas das habilidades e a maior dependência. E por último, cuidar de quem cuida é fundamental. Familiares e cuidadores também precisam de apoio, orientação e momentos de descanso, pois o cuidado contínuo pode ser emocionalmente exigente. Um cuidador bem orientado e acolhido consegue oferecer um cuidado mais humanizado e eficaz.





