Dr. André Fechio fala da desgastante rotina dentro uma UTI Covid-19

http://www.minhasaojose.com.br
Ele, que também já contraiu a doença, destacou a importância da consciência coletiva com atitudes simples, que salvam vidas

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

A Medicina exige muito mais do que conhecimentos técnico e científico para se fazer eficiente. A empatia, principalmente nestes tempos de Pandemia, vem sendo um dos sentimentos mais disseminados nos grandes centros de cuidados com a saúde, o que inclui os hospitais de campanha, tão comuns neste ano atípico que estamos vivendo.

Porém, não é fácil lidar com uma doença até então desconhecida como a Covid-19, principalmente dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva, local onde comumente já há um desgaste natural devido à gravidade do quadro clínico dos pacientes.

Para contar um pouco desse dia-a-dia na chamada ‘linha de frente’ da doença, o www.minhasaojose.com.br conversou com o jovem médico André Augusto Ferreira Fechio, de 28 anos que, além de falar sobre sua rotina de trabalho em UTIs, destacou que também já contraiu a Covid-19.

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Itajubá – FMIT em 2018, o médico rio-pardense é residente de Cirurgia Geral da Santa Casa de Araraquara, onde presta seus serviços médicos, assim como em São José, onde já atuou no Pronto Socorro, na Estratégia Saúde da Família (ESF) e atualmente trabalha na UTI Covid-19 na Santa Casa.

Durante a entrevista, o médico relatou o drama de alguns pacientes que tem seu quadro agravado pelo Coronavírus, mas também das recuperações e da satisfação em auxiliar tanta gente a vencer essa doença.

Como mensagem final, Dr. André destacou a consciência coletiva, por meio de atitudes simples como uso da máscara e lavagem das mãos, que estão contribuindo para salvar vidas. E pediu para que todos continuemos com as medidas de prevenção, já que ainda não há uma vacina contra a doença. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Dr. André com a equipe médica, de enfermagem, fisioterapia e limpeza em hospital de Araraquara

Dr. André, apesar de muito jovem, você possui um vasto currículo. Conte um pouco sobre os locais onde já trabalhou nestes primeiros anos após formado.

Dr. André Augusto Ferreira Fechio: Inicie minha atuação como generalista em Pronto Socorro pela região do Sul de Minas Gerais nas áreas de urgência e emergência. Ingressei na residência de cirurgia geral no Hospital De Clínica da Faculdade de Medicina de Itajubá, porém após alguns meses, deixei o programa para iniciar como Médico de Família e comunidade no ESF Vila Formosa (Jardim São José), onde trabalhei por meses. Também trabalhei como clínico geral no PPA Central por quase um ano, conciliando com Plantões no P.S. do município e da região, como UPA de Mococa e Vargem Grande do sul.

Onde e quais os trabalhos que desempenha atualmente?

Sou extremamente feliz por poder trabalhar em nossa cidade, na nossa UTI Covid-19, pois zelo pelo cuidado, carinho e atenção com a nossa população. Além daqui, como estou me especializando em Cirurgia Geral, moro no município de Araraquara e lá, além das atividades da residência médica que englobam os mais diversos tipos doenças, tratamentos clínicos e cirúrgicos, faço plantões numa UTI e hospital de campanha voltado ao tratamento de pacientes com Covid-19.

Por falar nela, como o dr. contraiu e enfrentou a doença?

Com toda a rotina de atendimentos em linha de frente fui contaminado com o vírus da Covid-19. Antes disso acontecer, o governo propôs colocar os residentes para atuar nesta chamada linha de frente. Fomos designados ao estágio na UTI Covid aqui de nosso hospital e foi assim que me despertou o interesse por terapia intensiva, principalmente voltada para essa doença nova, envolvida no contexto da pandemia. Sempre gostei de trabalhar em prontos atendimentos, dar os primeiros cuidados ao paciente e fazer diagnósticos, claro que com isso aumenta a exposição ao vírus e chances de contrai-lo, assim como aconteceu comigo.

Você desenvolveu sintomas?

No final de abril iniciei com sintomas gripais leves, perdi paladar e olfato e tive um pico febril, sem falta de ar ou tosse. Logo desconfiei do diagnóstico e tomei as devidas providências de isolamento, além de fazer os exames para confirmação. Fiz todos os exames indicados como swab nasal e demais laboratoriais, além da tomografia de tórax que evidenciaram lesões em vidro fosco, acarretando um pouco de preocupação. Mas passou tudo bem, fiquei os 14 dias isolado e em tratamento e, após curado, voltei às minhas atividades sem nenhuma complicação.

Como é o dia-a-dia de uma UTI com pacientes de Covid-19?

O dia a dia é muito exaustivo, pacientes críticos, com muita exigência profissional de todos da equipe (médicos, enfermagem, técnicos, fisioterapeutas, equipe de limpeza, farmácia. Os cuidados são 24 horas com manejo de drogas, medicações, intubação, acessos invasivos para melhor monitorização. Enfim, tudo o que uma unidade de terapia intensiva exige, porém com cuidados redobrados, já que nós nos paramentamos para cada paciente, trocamos após os atendimentos todos os EPI’s e assim sucessivamente. A recuperação de pacientes com Covid-19 grave, com síndrome respiratória aguda grave é lenta porque além do acometimento respiratório, muitos pacientes podem evoluir com insuficiência renal e demais complicações que agravam o quadro, porém nós nos baseamos em estudos científicos e de maiores credibilidades para assim praticar o melhor cuidado ao doente.

Você já viu mais gente morrendo ou se recuperando da doença na UTI?

Na unidade de terapia intensiva respiratória de Araraquara tivemos um balanço positivo de recuperados, mas depende muito da situação prévia dos pacientes, comorbidades e início dos cuidados precoces. Mas é evidente a alta taxa de mortalidade da doença no Brasil e mundo.

Hoje, o que mais dificulta a estabilidade da doença no Brasil – o frágil sistema de saúde, com seus problemas e limitações, a falta de credibilidade das pessoas à ela ou a falta de informação correta?

Eu, particularmente, sou defensor do SUS. Sem esse sistema inúmeras pessoas ficariam vulneráveis à Covid-19 e demais doenças. Temos que lutar e defendê-lo, pois todas as pessoas depende do SUS: isso é inquestionável . O que mais dificulta acredito ser um conjunto de problemas, como falta de credibilidade por algumas políticas públicas, pessoas se aproveitando da situação empregando tratamentos sem comprovação científica, não cumprimento das orientações, flexibilizando os cuidados e também as limitações do próprio sistema. Eu tive contato com o SUS em outras regiões e, pelo menos em São José, as pessoas conseguem ter atendimento adequado, realização de exames e procedimentos. A UTI Covid-19 do nosso município é equipada, com ótimos profissionais e estão desempenhando um ótimo trabalho! O SUS realmente funciona em nosso município.

Como médico e um sobrevivente à Covid-19, que conselho deixaria à população?

Não é fácil esse momento em que estamos vivendo e não podemos pensar apenas em nós. Temos que ter consciência coletiva, nossas ações, por mais simples que sejam, como lavar a mão, usar máscara, pode salvar vidas, além de não propagar a doença, contaminado outras pessoas. Pense nas pessoas que estão limitadas em suas funções e atividades secundárias aos problemas que vieram com a pandemia, principalmente a parte financeira. Estamos num cenário em que nossa região regrediu e isso não é bom, mostra uma flexibilização nos cuidados e aumento de casos. As pessoas tem que ter essa consciência social sobre a doença. Portanto, cuidem-se! E se desenvolver os sintomas, procure atendimento médico.

http://www.minhasaojose.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

error: Caso queira reproduzir este conteúdo, entre em contato com os editores pelo e-mail: minhasaojose@uol.com.br