CIDADEDESTAQUESAÚDE

Gerontóloga Letícia Semensato explica normalidades e sinais de alerta no processo de envelhecimento

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Envelhecimento normal, sem maiores intercorrências e gozando boa qualidade de vida. Sim, isso é possível, e nesta semana, a gerontóloga Letícia Semensato explica o que é ‘envelhecer normalmente’, bem como os principais desafios quando se passa dos 60 anos.

Na entrevista, ela destacou sintomas do processo de envelhecimento que são considerados normais e aqueles que acendem alertas, bem como quando o idoso e familiares devem ficar atentos a eles.

Letícia recomendou, ainda, visitas a gerontólogos. “A gerontologia atua de maneira preventiva, auxiliando na promoção da qualidade de vida, autonomia e bem-estar do idoso. E esse cuidado deve começar antes mesmo de qualquer diagnóstico ou sinal de alerta, através da prevenção, orientação e incentivo a hábitos saudáveis ao longo do envelhecimento”, afirmou.

Ela também ressaltou a importância da família e dos cuidadores nestas observações relativas aos comportamentos dos idosos, e o papel fundamental que têm no acompanhamento de suas rotinas, assim como nas consultas médicas, principalmente aos gerontólogos.

E, como de praxe nesta série de entrevistas, a gerontóloga salientou quais os principais cuidados que os 60+ devem ter para envelhecer bem, e não apenas eles, mas todos, independente da idade, que querem deter mais qualidade de vida.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

“O processo de envelhecimento é construído ao longo de toda a vida e reflete nossos hábitos, cuidados e estilo de vida desde a juventude. Afinal, o envelhecimento é o espelho da nossa trajetória”, afirmou a gerontóloga

Letícia, o que podemos considerar como envelhecimento normal?

Gerontóloga Letícia Semensato: Podemos considerar como envelhecimento normal quando ocorre o processo natural do corpo, ou seja, acontece de forma gradual ao longo dos anos. Algumas mudanças são esperadas, como a diminuição da força muscular, audição e visão, a redução da disposição física, alterações no sono e lapsos leves de memória. Vale ressaltar que envelhecer não significa adoecer. É possível envelhecer com autonomia, qualidade de vida e bem-estar.

Quais “sintomas” são considerados normais?

O ponto mais importante sobre o processo de envelhecimento é sempre observar se as mudanças que estão ocorrendo comprometem a rotina, a autonomia, a independência e a velocidade das alterações. Porém, algumas mudanças podem acontecer naturalmente, como as alterações visuais e auditivas graduais, alguns esquecimentos leves ocasionais, as mudanças no padrão de sono, a redução da velocidade para realizar algumas tarefas e a diminuição da força e equilíbrio.  

E quando devemos ficar atentos e a quais sinais ou sintomas? Devemos ficar atentos quando as mudanças são expressivas e persistentes na rotina, alteram o comportamento ou a capacidade funcional do idoso. Alguns sinais de alerta que precisamos nos atentar é a perda de memória frequente que começa a prejudicar o dia a dia, os episódios de confusão mental, as alterações bruscas de humor ou comportamento, as quedas recorrentes, o isolamento social, a perda de autonomia, a dificuldade para realizar atividades simples e perda de peso sem explicação.  Muitas vezes, essas alterações são confundidas com “coisas da idade”, mas merecem uma avaliação profissional para investigar possíveis doenças ou necessidades específicas e garantir mais qualidade de vida ao idoso.

Mesmo que o paciente esteja envelhecendo de forma “normal”, você recomendaria uma consulta com um gerontólogo? Por quê?

Sim, mesmo quando o envelhecimento acontece de forma considerada normal, o acompanhamento com um gerontólogo é muito importante. A gerontologia atua de maneira preventiva, auxiliando na promoção da qualidade de vida, autonomia e bem-estar do idoso. Com o aumento da expectativa de vida, é fundamental buscarmos não apenas viver mais, mas envelhecer com qualidade, saúde e independência. E esse cuidado deve começar antes mesmo de qualquer diagnóstico ou sinal de alerta, através da prevenção, orientação e incentivo a hábitos saudáveis ao longo do envelhecimento.

Como a gerontologia atua nesta questão do envelhecimento, mesmo quando não há sinais de alerta, doenças?

A gerontologia atua de forma preventiva e integral, acompanhando o processo de envelhecimento mesmo quando não há doenças ou sinais de alerta. O objetivo é promover um envelhecimento mais saudável, com autonomia e qualidade de vida. É possível realizar o acompanhamento do envelhecimento saudável através da estimulação cognitiva, das orientações sobre hábitos saudáveis, o fortalecimento dos vínculos sociais e o incentivo à independência, buscamos prevenir as perdas funcionais e auxiliar o idoso a envelhecer de forma ativa e com vitalidade. Além disso, também orientamos familiares e cuidadores para que compreendam melhor as necessidades dessa fase da vida.

Por falar nisso, como familiares/cuidadores devem ficar atentos a sinais de alerta?

Os familiares e os cuidadores têm um papel fundamental em observar o comportamento do idoso no dia a dia. É importante ficar atento a mudanças na conduta, na alimentação, na memória, no humor (muita irritabilidade ou apática), no sono e na capacidade de realizar atividades que antes eram feitas com facilidade. As quedas frequentes é um sinal de alerta importantíssimo, o isolamento social, os esquecimentos importantes, confusão mental, perda de autonomia ou alterações emocionais também merecem atenção. Muitas vezes, pequenos sinais são vistos como normal do envelhecimento, mas podem indicar a necessidade de avaliação e acompanhamento profissional qualificado. Quanto mais precoce for essa percepção, maiores são as possibilidades de cuidado, prevenção e um envelhecimento saudável.

É necessário ou recomendável que eles acompanhem esses pacientes nas consultas com gerontólogo, por exemplo? 

Claro! A participação dos familiares ou cuidadores na avaliação inicial é extremamente importante, pois eles auxiliam na originalidade das informações sobre a rotina, comportamento, dificuldades e possíveis mudanças observadas no dia a dia do idoso. Durante o acompanhamento, a presença deles pode ser opcional, dependendo da autonomia e necessidade de cada paciente. Porém, em momentos de orientações e alinhamentos de cuidados, é fundamental que estejam presentes junto ao idoso ou até mesmo em atendimentos reservados apenas para familiares e cuidadores, para que também recebam suporte e direcionamento adequados.

Paciente entrou nos 60 anos: quais os principais cuidados que deve ter para envelhecer bem?

Ao completar os 60 anos alguns cuidados se tornam fundamentais para promover um envelhecimento saudável, como manter acompanhamento regular de saúde, praticar atividade física, ter uma alimentação equilibrada, cuidar da saúde emocional, estimular a mente, manter vínculos sociais e preservar a autonomia e independência. Porém, é importante lembrar que o envelhecimento saudável não começa apenas aos 60 anos. O processo de envelhecimento é construído ao longo de toda a vida e reflete nossos hábitos, cuidados e estilo de vida desde a juventude. Afinal, o envelhecimento é o espelho da nossa trajetória. Quanto antes iniciarmos esse cuidado com a saúde física, emocional e social, maiores são as chances de envelhecer com qualidade de vida e bem-estar.

error: Caso queira reproduzir este conteúdo, entre em contato pelo e-mail: minhasaojose@uol.com.br