Gerontologia preventiva: Letícia Semensato destaca atendimentos a pessoas com menos de 60 anos

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Quando se pensa em Gerontologia logo se imagina que é voltada apenas a pacientes com mais de 60 anos, a chamada ‘terceira idade’, mas isso não é verdade. É claro que a maioria dos atendimentos é voltada a esse público, entretanto, pessoas com 40, 50 anos também estão buscando e obtendo os benefícios dessa ciência multidisciplinar, que objetiva promover a qualidade de vida, a autonomia e o envelhecimento ativo da população.
Para falar um pouco sobre a Gerontologia preventiva, as Mídias Minha São José entrevistaram a Gerontóloga Letícia Semensato que, além de destacar os atendimentos a esse público com menos de 60 anos, observou condições específicas em que atua, que levam a um envelhecimento precoce ou comprometem a cognição e a funcionalidade.
Ela também explicou sobre quando esse público menor de 60 anos deve buscar ajuda e a importância do fortalecimento das funções cognitivas, inclusive sugerindo algumas ações.

Letícia chamou a atenção, ainda, ao uso constante de telas, que pode comprometer as funções cognitivas precocemente. “O uso excessivo de telas e a exposição constante a um grande volume de informações podem impactar as funções cognitivas, especialmente quando isso acontece desde a infância. O cérebro precisa de momentos de foco, descanso e experiências variadas para se desenvolver de forma saudável”, afirmou.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Minha São José: Letícia, você também atende pessoas com menos de 60 anos?
Letícia Semensato: Sim, também atendo pessoas com menos de 60 em determinadas situações. Embora a Gerontologia tenha como foco principal o processo de envelhecimento e a saúde da pessoa idosa, o gerontólogo também pode atuar com pessoas abaixo dos 60 anos quando há condições que levam a um envelhecimento precoce ou comprometem a cognição e a funcionalidade. É o caso de pessoas com doenças neurológicas, sequelas de AVC, traumatismo craniano, esclerose múltipla, doença de Parkinson de início precoce, além de adultos que apresentam alterações de memória, atenção ou outras funções cognitivas. O objetivo é promover qualidade de vida, autonomia e prevenir ou minimizar as perdas funcionais, sempre com um plano de atendimento especializado.
Geralmente, o que leva pessoas com 40, 50 anos a buscarem pela Gerontologia?
Cada vez mais as pessoas entre 40 e 50 anos procuram a Gerontologia de forma preventiva. Muitas começam a perceber dificuldades relacionadas à memória, atenção, concentração ou organização da rotina, enquanto outras convivem com um diagnóstico ou tratamento que afetou a cognição. Também há aqueles que buscam orientações para envelhecer de forma mais saudável, adotando estratégias que preservem a saúde cognitiva e a qualidade de vida ao longo dos anos.
Como são promovidos esses atendimentos?
O atendimento é individualizado e centrado nas necessidades de cada pessoa. Inicialmente realizo uma avaliação para compreender como estão as funções cognitivas, como memória, atenção, linguagem e raciocínio, além da funcionalidade, rotina e dificuldades do dia a dia. A partir dessa avaliação elaboro um plano de intervenção personalizado, com atividades de estimulação cognitiva, estratégias para compensar dificuldades e orientações para o paciente e seus familiares, quando necessário. O objetivo é preservar ou recuperar a autonomia, favorecer a independência e promover uma melhor qualidade de vida, independentemente da idade.
Ao apresentar lapsos de memória, por exemplo, nestas idades entre 40, 50 anos, você recomendaria procurar um gerontólogo para uma avaliação mais detalhada?
É importante procurar uma avaliação especializada quando os lapsos de memória começam a ser frequentes, interferem na rotina ou geram preocupações. Nem toda queixa de memória significa uma doença neurodegenerativa, ela pode estar relacionada ao estresse, ansiedade, depressão, privação de sono, alterações hormonais, uso de medicamentos ou outras condições de saúde. Por isso, uma avaliação detalhada é fundamental para identificar a causa e definir a melhor conduta. O gerontólogo realiza uma avaliação cognitiva e funcional, identificando quais funções estão preservadas e quais apresentam dificuldades. A partir disso, é possível orientar a pessoa, indicar estratégias de estimulação cognitiva e, quando necessário, encaminhá-lo para outros profissionais, como neurologista ou psiquiatra, para uma investigação complementar.
Quais outros sintomas não devem deixar de serem avaliados, mesmo em idades inferiores a 60 anos?
Além dos lapsos de memória existem outros sinais que merecem atenção, mesmo antes dos 60 anos. Dificuldade de concentração, perda de atenção, problemas para planejar ou organizar tarefas, dificuldade para encontrar palavras durante uma conversa, mudanças importantes no comportamento ou no humor, desorientação em locais conhecidos e dificuldade para realizar atividades que antes eram simples são sintomas que não devem ser ignorados. O mais importante é não normalizar esses sinais apenas por causa da idade ou da correria do dia a dia. Quanto mais cedo a pessoa busca por uma avaliação, maiores são as chances de identificar a causa, tratar fatores reversíveis e preservar a saúde cognitiva e a qualidade de vida.
É verdade que o uso de telas e a quantidade excessiva de informação pode prejudicar nossas funções cognitivas desde a infância?
Sim, o uso excessivo de telas e a exposição constante a um grande volume de informações podem impactar as funções cognitivas, especialmente quando isso acontece desde a infância. O cérebro precisa de momentos de foco, descanso e experiências variadas para se desenvolver de forma saudável. Quando há excesso de estímulos, alternância constante entre aplicativos e notificações e pouco tempo para atividades como leitura, brincadeiras, interação social e sono de qualidade, podem surgir dificuldades de atenção, concentração, memória e aprendizagem. Vale lembrar que não é a tecnologia em si que prejudica o cérebro, mas o uso excessivo e sem equilíbrio. As telas também podem ser excelentes ferramentas de aprendizado quando utilizadas de forma consciente, com tempo adequado e conteúdo de qualidade. O desafio é encontrar um equilíbrio entre o mundo digital e atividades que estimulem o cérebro de outras maneiras. O cérebro funciona como um músculo: ele precisa de desafios, descanso e variedade de estímulos. Por isso, cuidar da saúde cognitiva é um hábito que deve começar desde a infância e continuar por toda a vida.
Gostaria que você comentasse, em síntese, os motivos de doenças como o Alzheimer acometer pessoas mais jovens.
A Doença de Alzheimer é mais comum após os 65 anos, embora seja raro, também pode ocorrer em pessoas mais jovens, entre os 40 e 50 anos. Nesses casos, a doença costuma estar mais relacionada a fatores genéticos, especialmente quando há histórico familiar e início precoce da doença. Como falado anteriormente, a maioria das queixas de memória em pessoas mais jovens não é causada por uma doença neurodegenerativa. Por isso, uma avaliação especializada é essencial para identificar a causa e indicar a melhor abordagem. A principal orientação é não ignorar sintomas persistentes. O diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento mais adequado, orientar a família e adotar estratégias que ajudam a preservar a autonomia, a qualidade de vida e um envelhecimento saudável.
Para finalizar, como essa ‘turma’ que está na casa dos 40, 50 anos pode fortalecer as funções cognitivas?
As funções cognitivas podem ser fortalecidas por meio de um conjunto de hábitos e intervenções. Devemos praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada, um sono de qualidade, controlar doenças como hipertensão e diabetes e a manutenção da vida social são fundamentais para a saúde do cérebro. Além disso, a estimulação cognitiva individualizada, realizada por um profissional capacitado, ajuda a trabalhar habilidades cognitivas de forma direcionada às necessidades de cada pessoa.






