CIDADEDESTAQUEGERAIS

Jornada de trabalho: Izonel Tozini fala sobre o fim da escala 6X1 e os riscos à economia

Trabalhar seis dias e folgar um ou trabalhar cinco dias e folgar dois dias por semana? As discussões acerca do fim da tradicional escala de trabalho 6X1 estão aí: sindicatos, mídias trazem ao debate a proposta que visa extingui-la e passar a vigorar a escala 5X2.

Nesta semana, as mídias Minha São José iniciam uma série de entrevistas sobre o polêmico tema, trazendo a opinião do presidente do Sindicato do Comércio Varejista de São José do Rio Pardo e Região, Izonel Tosini, que respondeu a alguns questionamentos a respeito do assunto, que, como tudo que é novo, também vem gerando muitas dúvidas, principalmente se o novo sistema será, de fato, promissor ao trabalhador.

Em sua análise, Izonel destacou que ele, bem como o Sincopar não são contra a jornada 5X2, mas sim à forma como a implantação vem sendo imposta, sem análises reais, principalmente dos impactos econômicos e financeiros que podem gerar.

O presidente do Sindicato também destacou possíveis ações do empresariado, principalmente os pequenos e médios, para se adaptarem ao novo sistema, caso este seja implantado, além de repasses, quase impossíveis de não acontecer, nos preços ao consumidor.

Izonel observou, ainda, que essa discussão e possível implantação da escala 5X2 não deveria ser pautada em ano eleitoral. “Não sou contra essa nova escala de trabalho, pois a busca por melhores condições de vida para o trabalhador é legítima. O que não pode é querer resolver tudo isso numa canetada. O próprio mercado se ajusta com o devido tempo , através das negociações coletivas de trabalho, e hoje a media da jornada de trabalho já está em 39 horas semanais”, destacou.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Minha São José:Izonel, por que o fim da escala 6×1 seria prejudicial ao empresariado e quem mais sofreria com ela?

Izonel Tosini: Porque com o fim da escala 6×1, reduzindo os dias de trabalho, com certeza vai haver queda de produtividade, pois nem toda atividade econômica permite “produzir mais em menos tempo”, por exemplo, o comércio precisa de mais dias, restaurantes precisam de equipe constante, serviços dependem de presença física, saúde de presença física , transportes, hotelaria, bares, turismo etc. Evidentemente que as empresas vão ter que se reinventar, principalmente nos primeiros meses, no sentido de se adequar entre as próprias, cada uma com um poder de caixa maior ou menor para equilibrar os preços finais para o consumidor. As empresas sobrepõe todos os custos nos produtos, mais o possível  lucro, mais os impostos, e esses são repassados para o governo. Dessa forma, quem mais vai sofrer as consequências é a sociedade como um todo e os próprios funcionários, que com o mesmo salário não vão adquirir os mesmos produtos, que vão ter um custo por volta de 10% e um encolhimento de até 1% do BIP,  sem dizer ainda que até os consumidores serão afetados, pois muitas empresas poderão estar de portas fechadas por dificuldades de manter a nova escala.

O que teria que ser feito para implantar o regime 5×2? Análises, tempo gradativo, ou você, como presidente da Sincopar, é totalmente contra à ela?

Em primeiro lugar, ela nunca deveria ser questionada, debatida em ano eleitoral. Não sou contra a escala 5×2, pois a busca por melhores condições de vida para o trabalhador é legítima. O que não pode é querer resolver tudo isso numa canetada. O próprio mercado se ajusta com o devido tempo, através das negociações coletivas de trabalho, e hoje a media da jornada de trabalho esta em 39 horas semanais. Como presidente do Sincopar eu não sou contra, até porque nos trabalhamos com jornada de 40 horas semanais, conseguimos adaptar de forma bem natural e tem muitas empresas que já praticam 5×2 há décadas. A indignação são as entrevistas, jornais, revistas, televisão e redes sociais, que  praticam um discurso totalmente fora da realidade, comparando os países desenvolvidos, como a França, Alemanha, EUA com a nossa jornada e salários, pois esses países primeiro trabalharam duro por 12-14 e 16 horas diárias, com mão de obra qualificada e com muita produtividade. Moral da questão: ficaram ricos e agora estão com condições de ter uma vida mais saudável, com menor jornada e mais salários, louros que eles conquistaram ao longo do tempo. Agora, vamos ver o nosso país: tem recursos naturais em abundância, desde criança ouço as pessoas dizerem que este é o país do futuro, mas que nunca chega: somos totalmente improdutivos, um país pobre e velho. Nós, da Fecomércio-SP, estamos diuturnamente em Brasília com nossos técnicos mostrando os verdadeiros impactos econômicos. Se não conseguirmos as devidas contrapartidas toda sociedade pagará, no caso da jornada de 40 horas, mais 10% sobre os preços das mercadorias.

“Pequenas e médias empresas, que empregam 90% da mão de obra e recolhem 25% da carga tributária, possivelmente uma grande parte dessas que não têm caixa para se manter até buscar o equilíbrio do mercado poderão fechar as portas, pois serão essas as mais vulneráveis e que preocupam muitas autoridades”

Você acredita que realmente o trabalhador vai descansar neste dia de “folga”?

Não acredito. Ele vai fazer bico e também vai precisar trabalhar mais para recompor o valor do salário, que vai perder poder de compra em face do aumento dos novos preços das mercadorias. Muitos acidentes de trabalho que acontecerão em outras empresas vão ser jogados para empresa principal onde é registrado.

Por que essa nova escala pode gerar desemprego ou mais informalidade?

Porque muitos empresários vão tentar reduzir o quadro de funcionários, inclusive buscando de forma mais rápida novas tecnologias para substituir mão de obra, e com isso vai aumentar a informalidade.

Se realmente vir a vigorar, como o pequeno empresário, por exemplo, deverá agir? Será possível acordos, etc?

Realmente é aí que mora o maior problema, pois as pequenas e médias empresas, que empregam 90% da mão de obra e recolhem 25% da carga tributária, possivelmente uma grande parte dessas que não têm caixa para se manter até buscar o equilíbrio do mercado poderão fechar as portas, pois serão essas as mais vulneráveis e que preocupam muitas autoridades. E não serão alcançadas por acordos coletivos em defesa da nova jornada.

Há alternativas que garantam mais flexibilidade em horários sem ser a escala 5×2?

Há somente se for contemplada na própria PEC, o pagamento por hora, como acontece em outros países. Portanto, não deveriam mexer na escala, na pior hipótese somente na jornada de 40 horas. Por lei ela torna-se uniforme, imediata e pouco flexível.

error: Caso queira reproduzir este conteúdo, entre em contato pelo e-mail: minhasaojose@uol.com.br