Tempo de Quaresma: Você sabe o que ela significa?

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Em entrevista ao site, o padre Rogério Moreira explicou alguns atos como a penitência e a importância da oração

Reportagem e texto: Natália Tiezzi Manetta

Após o Carnaval, Cristãos se preparam para viver os próximos 40 dias em um período de muita oração, reflexão e penitências. A Quaresma, apesar de ser vivenciada pelos católicos, também é considerada por outras religiões, principalmente com relação à prática da penitência. Mas, você sabe como a Quaresma foi instituída e o motivos que a tornam tão importante aos Cristãos?

Em entrevista ao www.minhasaojose.com.br, o Padre Rogério Moreira explicou o que realmente é e o que significa esse período, bem como os atos de penitência e importância da oração. “Quaresma é tempo de conversão. Tempo de buscar o Sacramento da Confissão, se arrepender dos pecados e se empenhar para que a mudança de atitude verdadeiramente aconteça”, explicou o padre.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Padre Rogério, o que significa a Quaresma?

Dentre todas as solenidades cristãs, o primeiro lugar é ocupado pelo mistério pascal, porque devemos nos preparar para vivê-lo convenientemente. Por isso, foi instituída a Quaresma, um tempo de quarenta dias para chegarmos dignamente à celebração do Tríduo Pascal. A Quaresma, como prática obrigatória, foi instituída no século IV, mas, desde sempre, os cristãos se preparavam para a Páscoa com oração intensa, jejum e penitência. O número de quarenta dias tem um significado simbólico-bíblico: quarenta são os dias do dilúvio, da permanência de Moisés no Monte Sinai, das tentações de Jesus. Guiados por esse tempo e pelas práticas, buscamos os tesouros da fé para crescer no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este tempo de quarenta dias foi inspirado numa grande catequese que a Igreja primitiva realizava. Ela durava quarenta dias, tempo em que os pagãos (catecúmenos) se preparavam para receber o batismo no Sábado Santo, dentro da Solenidade da Vigília Pascal. Acompanhavam também os irmãos que tinham cometido pecados graves para retornarem à fé. Esse tempo era marcado pela penitência e oração, pelo jejum e escuta da Palavra de Deus. Eles eram os “penitentes”, os quais renovavam a fé e recebiam o batismo ou eram reintegrados à comunidade no Sábado Santo.

O que significa a penitência e o que leva tantas pessoas a praticarem?

A Quaresma nos oferece um tempo favorável para se deixar o pecado e voltar para Deus. E para isso fazemos penitência. O objetivo desta não é nos fazer sofrer ou nos privar de algo que nos agrada, mas ser um meio de purificação de nossa alma. Sabemos o que devemos fazer e como viver para agradar a Deus, mas somos fracos; a penitência é feita para nos dar forças espirituais na luta contra o pecado.

A melhor penitência, sem dúvida, é a do Sacramento que tem esse nome. Jesus instituiu a Confissão em sua primeira aparição aos discípulos, no mesmo domingo da Ressurreição, dizendo-lhes: A quem vocês perdoarem os pecados, os pecados estarão perdoados. Não há graça maior do que ser perdoado por Deus, estar livre das misérias da alma e estar em paz com a consciência. 

Além do Sacramento da Confissão a Igreja nos oferece outras penitências que nos ajudam a buscar a santidade, sobretudo, as que Jesus recomendou no Sermão da Montanha: o jejum, a esmola e a oração, os quais são chamados pela Igreja de remédios contra o pecado. Cristo jejuou e rezou durante quarenta dias antes de enfrentar as tentações do demônio no deserto e nos ensinou a vencê-lo pela oração e pelo jejum. Da mesma forma, a Igreja quer ensinar-nos como vencer as tentações de hoje. Vencemos o pecado praticando a virtude oposta a ele. Assim, para vencer o orgulho, devemos viver a humildade; para vencer a ganância devemos dar esmolas; para vencer a impureza, praticar a castidade; para vencer a gula, jejuar; para vencer a ira, aprender a perdoar; para vencer a inveja, ser bom; para vencer a preguiça, levantar-se e ajudar os outros. Essas são boas penitências para a Quaresma. Todos os exercícios de piedade e de mortificação têm como objetivo livrar-nos do pecado. O jejum fortalece o espírito e a vontade para que as paixões desordenadas não dominem a nossa vida e a nossa conduta. A oração fortalece a alma no combate ao pecado. 

Qual comportamento as pessoas devem seguir neste período?

Cada um deve fazer na Quaresma um programa espiritual: fazer o jejum que se consiga, que pode ser parcial ou total. Pode-se, por exemplo, deixar de ver TV, ou deixar de ir a uma festa, a uma diversão, ou não comer ou beber algo de que se gosta muito; ou não dizer uma palavra no momento de raiva ou contrariedade, ou quem sabe não falar de si mesmo, dar a vez aos outros na igreja, na fila, no ônibus; ser manso e atencioso com os outros, perdoar a todos, dormir um pouco menos, rezar mais, ir à Santa Missa durante a semana, entre outros. Enfim, há mil maneiras de se fazer boas penitências que nos ajudam a fortalecer o espírito para que ele não fique sufocado e esmagado pelo corpo e pela matéria. A penitência não é um fim em si mesmo; é um meio de purificação e santificação; por isso deve ser feita com alegria.

Pessoas que seguem outras religiões podem fazer penitência, por exemplo?

A prática da penitência tem sido usada por religiões diversas através da História, muitas vezes para colocar o corpo e mente em um estado que facilite o contato com o sagrado.

Muitos cristãos de outras gerações contam muitas histórias acerca da Quaresma, inclusive lendas, o chamado folclore quaresmal. Ele ainda permanece atualmente?

O período da Quaresma, no passado, sempre foi acompanhado por histórias do imaginário popular, que causava até mesmo medo nas pessoas. Creio que era um tempo também de grande respeito pelo sagrado e pelas propostas da Igreja para bem viver este tempo, em preparação à Páscoa do Senhor.

Hoje, devido a uma grande secularização, em muitas regiões, o folclore quaresmal não existe mais. O problema é que com ele veio a desvalorização, o desrespeito, para com o sagrado. O tempo litúrgico tem ficado cada vez mais de lado na vida daqueles que se dizem cristãos. O cristão, que busca viver sua fé na fidelidade a Deus, sabe que mais do que o ano civil, de janeiro a dezembro, sua vida é marcada pelo ano litúrgico, dando um novo significado a cada tempo que Deus concede.

Neste período muitas pessoas deixam de comer carne até como penitência. Por que o peixe não é considerado carne?

Desde a antiguidade, a carne vermelha foi símbolo de opulência e celebração. Por isso, consumi-la durante a Quaresma não combinaria com o sentimento de reflexão e humildade desta época litúrgica. Em sua “Suma Teológica”, São Tomás de Aquino explica que o consumo de carne vermelha também dá mais prazer, já que ela é mais saborosa. Abster-se dela seria mostra de um grande sacrifício. A carne permitida às sextas-feiras da Quaresma (e na Quarta-feira de Cinzas) é aquela que provém do mar, dos lagos e dos rios, com algumas exceções. Assim como Jesus deu sua carne e sangue por nós, jejuar é uma mostra de gratidão. Explicado isso, é importante dizer que, embora o peixe possa ser consumido, seu preparo deve ser simples. Os doentes, crianças menores de 14 anos, mulheres que amamentam e aqueles que têm restrições alimentares podem descumprir a norma. Apesar de não ser um mandamento, abster-se de certos gostos gastronômicos nos agrega um sentido de humildade, abnegação, agradecimento e penitência. É uma maneira de recordar e viver o tempo da Quaresma em verdadeira preparação para a Páscoa.

Para finalizar, por que a Quaresma é um período tão importante para todos nós?

A Quaresma é o tempo mais rico e profundo da liturgia. Na verdade, esse tempo, que abrange a Quaresma, Semana Santa e Páscoa até o Pentecostes, é um grande retiro, centro do Mistério de Cristo e da nossa fé e salvação. Tempo privilegiado de conversão e combate espiritual, de jejum medicinal e caritativo. A Quaresma ainda é, sobretudo, tempo de escuta da Palavra de Deus, de uma catequese mais profunda, que recorda aos cristãos os grandes temas batismais em preparação para a Páscoa. Assim, bem viveremos a Páscoa de Jesus, a grande oportunidade que Ele nos dá de termos uma vida nova.

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