Lutas e conquistas: Leirí Valentin conta sua trajetória de 36 anos no Magistério 

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A professora destacou a resistência aos estudos dela pelo saudoso pai e a gratidão dos alunos nas diversas instituições onde lecionou 

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Muitas vezes para se realizar um sonho e colocar um dom em prática é preciso enfrentar obstáculos até mesmo em família. O machismo e o sexismo ainda rondam o lar de muitas mulheres que, dependentes e submissas aos ‘homens da casa’ abrem mão de suas carreiras ou simplesmente são impedidas de vivenciarem uma profissão. 

Entretanto, há mulheres que enfrentam qualquer adversidade para vencer profissionalmente, como é o caso da nossa entrevistada desta semana em homenagem ao Magistério rio-pardense, a professora Leirí Valentin. 

Em sua trajetória de 36 anos de profissão, ela aprendeu a encarar as dificuldades até mesmo no ambiente familiar, já que o saudoso pai não era a favor de que estudasse. “Para ingressar na Faculdade foi uma luta com meu pai, pois ele achava que, como mulher, eu não tinha necessidade de continuar os estudos”, observou. 

Leirí graduou-se em Ciências pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do Rio Pardo (FEUC) e em Química pela UNIFEG/Guaxupé, além de mestrado e doutorado em Educação, na linha de pesquisa em Educação Ambiental, ambos na UNESP/Rio Claro. 

Ao longo da entrevista, Leirí contou que desde criança sonhava ser professora. Ela também destacou instituições de ensino onde lecionou, falou dos aprendizados do Magistério, bem como do maior legado que construiu ao longo de quase quatro décadas de profissão: o incentivo aos estudos para seus alunos, com base em sua própria história. 

“Eu contava minha trajetória de dificuldades para poder estudar, para ter uma profissão e como a Educação fez diferença na minha vida. Sempre falei para meus alunos que temos o ‘poder de escolha’. Que estudar vale a pena. Podemos conseguir o que quisermos, basta acreditar, ter determinação e não desistir quando os empecilhos surgirem”, afirmou. 

A professora ainda destacou um dos momentos mais especiais de sua carreira, que ocorreu mais tardiamente, mas que pode vivenciar. Vamos saber qual foi esse momento na entrevista abaixo e na íntegra. 

Leirí, o que a fez optar pelo Magistério?  

Professora Leirí Valentin: Minha mãe afirma que aos quatro anos de idade eu dizia que iria ser professora. Sempre tive essa certeza comigo, porém minha história escolar foi sempre uma luta para provar que a mulher também podia vencer com os estudos. Para ingressar na Faculdade foi uma luta com meu pai, pois ele achava que, como mulher, eu não tinha necessidade de continuar os estudos. Fui impedida de prestar o vestibular em localidades diversas da qual morava, e só pude prestar na FFCL/FEUC. Meu irmão pagou a matrícula e alguns meses de curso, quando meu pai viu que não tinha jeito, ele passou a pagar as mensalidades da Faculdade. Não era uma questão financeira, mas, sim, sexista e machista. Perdi meu pai no primeiro ano de Faculdade. Como tive que trabalhar logo cedo para me sustentar, o Mestrado e o Doutorado, só se viabilizou tardiamente. Eu me formei em 1985, ou seja, tenho 36 anos de Magistério. 

Quando e onde foi seu primeiro emprego como professora? 

Eu comecei a trabalhar como professora seis meses antes de me formar, no ano de 1985. Foi na Escola Estadual “Francisco Nogueira de Lima”, conhecida como Escola Industrial, localizada no município de Casa Branca. Na época, eu trabalhava em um escritório de contabilidade. Pedi as contas do emprego para assumir duas aulas de Química na referida escola. Todos acharam um absurdo, mas eu disse que tinha que começar, pois era o que eu queria para minha vida. Não me arrependo! Fiz a escolha certa. 

A professora com alguns de seus alunos do Curso de Ciências Biológica da FEUC em uma aula de campo noturna

Em quais outras escolas/instituições lecionou?  

Lecionei na EE “Dr. Cândido Rodrigues” e na EE “Profª Sylvia Portugal G. de Sylos”, como professora temporária em 1986. Em 1987, já como professora concursada, lecionei um ano em Campo Limpo Paulista. Fui removida para Igaraí e no ano seguinte para Tapiratiba. Cheguei removida em São José do Rio Pardo em 1990, para lecionar na EE “Profª Stella Couvert Ribeiro”, onde permaneci por 25 anos até me aposentar. Em 1990 também ingressei como professora na FEUC e permaneci até março de 2019, onde também me aposentei. 

Qual foi o momento mais marcante de sua carreira? 

Eu não tenho um único momento mais marcante, tenho vários. Mas, passar no concurso público para a rede estadual e para o Ensino Superior, na FEUC, foram grandes conquistas. Experimentei uma alegria imensa quando consegui ingressar no curso de Mestrado na UNESP de Rio Claro. No dia da matrícula chorei e agradeci a Deus por poder realizar mais um sonho. 

Leirí fazendo a abertura da Feira do Conhecimento do Colégio Unigrau, onde leciona atualmente

Em todos esses anos de sala de aula, algum aluno (a) lhe marcou? 

Muitos alunos me marcaram. Não vou citá-los para não cometer o erro de esquecer alguns. Foram tantos… Minha maior alegria é saber que estão felizes, e que seguiram o caminho do bem. Um fato que me marcou profundamente foi a carta de uma ex-aluna da EE “Stella”. Nessa carta me agradece, não pelos conteúdos de Ciências que aprendeu, mas pela determinação e incentivo que teve para continuar seus estudos a partir das minhas aulas. Eu contava minha trajetória de dificuldades para poder estudar, para ter uma profissão e como a Educação fez diferença na minha vida. Sempre falei para meus alunos que temos “poder de escolha”. Que estudar vale a pena. Podemos conseguir o que quisermos, basta acreditar, ter determinação e não desistir quando os empecilhos surgirem. 

O que é o melhor e o que é o pior no Magistério? 

O melhor da minha profissão é encontrar meus ex-alunos no caminho do bem e felizes com a profissão que escolheram. Saber que tive uma pequena participação nas suas histórias de vida é uma realização pra mim. O que é pior na minha profissão é ver a desvalorização do professor e a falta de atratividade da carreira docente. Tal condição leva muitos professores a desistirem da profissão e a desestimularem o ingresso de jovens na carreira docente, os quais acabam por procurar carreiras mais atrativas e com maior prestígio social. 

No Projeto “FEUC Solidária, em 2017, com o professor, colega e amigo Roque Lúcio

A professora ainda leciona? 

Eu ainda leciono. Atualmente sou professora do Colégio Unigrau. Estou, hoje, na condição sonhada por todos os professores e que deveria ser a condição ideal desde o início da carreira: lecionar apenas um período e ter tempo para preparar suas aulas e estudar no período diverso. Professor precisa de tempo para estudar e preparar suas aulas. Esse tempo favorece as dimensões afetivas na relação professor-aluno, o que ajuda a promover um bom processo de ensino-aprendizagem. A sobrecarga do trabalho docente, que enfatiza aspectos que desvalorizam o trabalho do professor, revela condições de trabalho precárias, não saudáveis e que comprometem a qualidade do trabalho docente. Se quisermos uma valorização da profissão docente, é urgente pensarmos em formas de amenizar a sobrecarga de trabalho do professor, propiciando condições ideais para que o trabalho seja feito sem intensificação e sobrecarga.  

Leirí, o que diria aos jovens professores que estão se formando agora? 

Sabemos que jovens se deparam com grandes impasses ao buscarem seu direito de trabalhar, de estudar, de realizar seus sonhos e projetos de vida. Cada vez menos jovens desejam ser professores. Entre 2006 e 2015, a taxa de adolescentes brasileiros de 15 anos que almejam seguir a carreira docente caiu de cerca de 7,5% para apenas 2,4%. Os dados foram revelados por um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Para os que ainda acreditam na carreira, não desanimem! O professor não é um mero executor de decisões tomadas por especialistas, mas sim um intelectual crítico, que condiciona sua prática educativa aos interesses de classe, relações de poder e ideologias e a dirige para modificar todos os fatores que impedem a emancipação dos educandos. Se acreditarem nisso ser professor faz toda a diferença. 

Para finalizar: para quem tanto ensinou, qual foi seu maior aprendizado enquanto lecionou? 

Hoje, refletindo sobre minha trajetória de escolarização, entendo por que escolhi ser professora e por que a Educação Ambiental (EA) passou a fazer parte do meu eu. As causas sociais sempre me atraíram, pois meu próprio caminho foi uma construção e uma luta para ser tratada como igual e para ter o direito de estudar. Direito, este, que defendi durante toda minha jornada como professora da rede pública estadual e como professora universitária. Reafirmo minha compreensão da Educação como ato político, que desafia e confronta o senso comum, e que, sobretudo contribui para a emancipação e a construção de uma sociedade democrática. 

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