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A crônica de domingo: “A Rumba no Velório”

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O enterro acabara de sair. O funcionário da funerária tirava as pesadas cortinas e coberturas de veludo negro com anjos prateados que escureciam a sala, desmontava a essa, recolhia os crucifixos e os castiçais. A janela entreaberta deixou entrar o sol e afugentar o cheiro dos lírios…

Num canto, a viúva, inconsolada, pranteava o finado, e era abanada pelos parentes e vizinhos.

O ambiente voltava a ser o que era, com os antigos móveis, enfeites, cristais, pratarias, recolocados onde sempre estiveram. Os jovens funcionários da loja do falecido encarregaram-se de arrumar a casa. Longe da viúva e dos parentes riam muito, recordando passagens cômicas do ex patrão.

Édson ficou encarregado de repor os cristais da cristaleira e vasos e enfeites sobre os pesados móveis, carregados pelos outros. Temeroso, trabalhava lentamente.

Ao levantar uma garrafa de louça colorida de licor, uma rumba agitada começou a tocar, invadindo todos os cômodos da casa. Desesperado, virou a garrafa, olhando o mecanismo que reproduzia a música, tentando reter a chavinha rodante… Apertou botões e alavancas, não conseguindo o seu intento: silenciar aquele som esfuziante e forte da rumba cubana…

A viúva, com olhos esbugalhados e vermelhos, aumentou as suas lamúrias.

 – Ai!… Era nossa música, a nossa ruma!… Volte, Oscar!… Volte!… Me leva com você!…

Paulo, outro empregado da loja, pândego, rindo muito no hall próximo, convidava Zita, a copeira, a dançar, ensaiando passos de desajeitado rumbeiro…

 – Ai, Oscar!… Venha ouvir nossa rumba!…

Édson desesperava-se, olhando a chave que não parava de girar.

 – Me ajude aqui, Paulo!… Como eu vou parar essa geringonça?

A rumba não tinha fim. As amigas da viúva tentavam acalmá-la:

 – Assim a senhora vai ficar doente, dona Miquelina!… Calma…

 – Eu quero o meu Oscar!… Ele dançava tão bem esta rumba!… Mande parar a nossa música!…

Édson andava com a garrafa, que devia estar com a corda toda, de um cômodo para outro. Esmurrava-a. Chacolahava-a, Abafava-a sob a toalha… E a rumba continuava…

 – Quebra ela, Édson! – suregiu o gozador Paulo.

Édson não se deu conta de que a música cessaria se a garrafa fosse colocada sobre uma superfície plana. E ficou mais nervoso quando ouviu dona Miquelina recriminar o acontecimento:

 – Ai, meu Deus!… Por que tem gente tão cruel, tentando, neste momento tão triste, me fazer recordar os meus bons tempos com o Oscar… Por quê?

Uma vizinha chorosa irritou-se e se aproximou de Édson.

 – Some daqui com essa garrafa, seu moleque!… Você não respeita nem a dor de uma veneranda senhora, que tanto amou?

O rapaz desculpou-se, dizendo-lhe que não conseguia interromper aquela música, entregando-lhe a garrafa. A vizinha rodou-a nas mãos, apertou chave e botões e a devolveu, com uma ordem:

 – Some daqui!

Quando ele descia a escada do quintal, a música parou. Édson respirou fundo, dando graças a Deus. Voltou deixando o indiscreto licoreiro sobre a mesa da copa, correndo ao banheiro.

O cômico Paulo, aproveitando-se da ausência do amigo, deu toda a corda possível, rodando a pequena chave do fundo da garrafa. Quando Édson voltou e levantou o licoreiro para leva-lo à sala, a umba do casal novamente inundou as dependências da casa. Ao ouvir o primeiro ‘ai’ de Dona Miquelina, ele correu para o quintal, pulando os degraus da escada. Tropeçou, caiu, vendo a garrafa artística e sonora escapar da sua mão e estilhaçar-se adiante… A caixinha de música do fundo da garrafa continuou a tocar a voluptuosa rumba cubana.

Édson levantou-se e, irado, chutou-a para longe.

Não fiquei sabendo qual foi a reação da viúva Miquelina quando deu falta daquele objeto, nem qual foi a desculpa dada pelo apavorado Édson, que nunca mais quis ouvir rumbas…

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