A crônica de domingo: “Até as pedras se encontram”

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Contaram-me uma passagem acontecida num sítio, entre São José e uma pequena cidade vizinha. A beleza e o incomum do fato impressionaram-me…

O sítio está um pouco longe da cidadezinha. O carro levanta o pó da estrada, sacoleja, trazendo, ao lado do sitiante chofer, o padre de meia- idade.

 – O senhor vai me desculpar, padre. Eu sei que a estrada está ruim, mas eu prometi ao senhor Mané que ele não morreria sem a extrema-unção. Ele sempre foi meu braço direito lá no sítio, sabe. Foi um colono muito bom…

 – Estou cumprindo minha missão, amigo! Nada me perturba!

O velho agonizava no catre. Na penumbra do quarto, uma vela iluminava parte do seu rosto.

O ritual processou-se com orações e a unção dos enfermos.

O padre olhava-o fixo, com carinho, demoradamente. Segurou-lhe, com ternura, as mãos enrugadas. Conversou, confortando os membros da família…

 – Quanto eu lhe devo, seu padre? – perguntou-lhe o dono das terras.

 – Absolutamente nada. Tudo está pago.

 – Como? Eu mal o conheço!… O senhor deixou a sua paróquia, enfrentou o pó e a estrada ruim!… Eu quero pagar-lhe o desconforto e a atenção.

 – Meu amigo, eu agradeço, mas está tudo pago.

 – Olha, seu padre, eu não estou entendendo nada! O senhor não quer receber, não é isso?

 – Não, senhor. Ele me pagou, há muito tempo… – concluiu, apontando o velho moribundo.

A coisa se complicou mais. Havia muitos anos que o colono não ia à cidade. Talvez ele nem conhecesse o padre…

 – Olha, padre – disse o sitiante, enfiando a mão no bolso – eu acho que ele nunca conversou com o senhor! Acho mesmo que ele nem o conhecia!… Eu vou lhe pagar o incômodo!

 – Por favor, amigo. Eu o conheço, e muito. Esta é a segunda vez que o vejo. A primeira foi há muito tempo. Eu devia ter oito ou nove anos. Nunca mais o esqueci: Guardei o seu semblante. Nem o tempo, nem as rugas me fariam confundi-lo… Estou feliz em reecontrá-lo e ministra-lhe os últimos sacramentos… Eu não consigo exteriorizar toda minha alegria…

 – Então o senhor conhecia o seu Mané? Ele nunca nos disse nada!

 – Faz tanto tempo. Eu era uma criança sensível. Meus pais trabalhavam na roça e passavam dificuldades. Os tempos estavam ruins para nós. Um dia, minha mãe mandou-me comprar uma lata de massa de tomate, na venda. O vendeiro não quis entregar, alegando que a contado meu pai estava muito alta e que só entregaria novas mercadorias depois de saldado o débito.

 – Mas meu pai vai pagar! Nós só temos macarrão para comer, e ninguém gosta de macarrão branco!… Vende, vai! Meu pai paga!

 – Sem dinheiro, não entrego nada!

 – Mas meu pai…

 – Pode entregar a massa ao menino, Joaquim! Marca na minha conta – disse um homem, ao meu lado.

 – Eu olhei aquele rosto bom de homem simples. Eu sabia que eu o encontraria, um dia, para agradecer e lhe dizer da felicidade e da alegria de um menino sem palavras… Passei a vida sem saber seu nome, a olhar fisionomias, tentando encontra-lo… Seu Manoel…

 – É padre, essa história é bonita e triste, né?

 – Para mim, é a alegria, porque o reencontrei.

 – É bem verdade o que povo diz, padre, de que um dia, até as pedras se encontram…

O carro levanta o pó e sacoleja nas lombadas da estrada.

O padre desce, na cidadezinha, em frente à casa paroquial.

 – Então, muito obrigado, padre!

 – Eu que agradeço, amigo. Hoje, a vida me proporcionou uma grande alegria. Louvado seja Deus!… O povo tem razão: até as pedras se encontram…

Crônica escrita em 1989 e publicada no livro “Meu Gambá, outras crônicas e histórias”, de autoria do professor Rodolpho José Del Guerra, em 2003.

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