Psicóloga Ana Amélia J. Capuano destaca o reflexo da Saúde Mental no funcionamento do trato digestivo
Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Semanas atrás, o site e jornal online Minha São José trouxe entrevista com o médico Dr. Antônio Roberto Franchi Teixeira, que observou que problemas digestivos como a Gastrite, por exemplo, podem ter relação com o estado emocional dos pacientes. Assim como a boa qualidade da Saúde Mental pode ser aliada à diminuição dos sintomas e medicamentos.
Nesta semana, a entrevista é com a psicóloga Ana Amélia Junqueira Capuano, que complementou a abordagem, destacando o ponto de vista psicológico sobre o tema, já que muitas pessoas sofrem de distúrbios relacionados à Saúde Mental, que refletem também na saúde do trato digestivo.
Ana Amélia salientou essa relação direta, bem como os transtornos mentais mais comuns que podem contribuir ao aparecimento ou aumento de sintomas gastrointestinais.

A profissional também relatou algumas vivências junto a seus pacientes, que apresentam os sintomas associados a alguma situação de desequilíbrio da Saúde Mental e quando a pessoa deve buscar auxílio psicológico.
Ela orientou, ainda, a quem já está passando por ambos problemas e a importância de buscar auxílio com nutricionista ou nutrólogo. “Uma desregulação do eixo intestino–cérebro reforça a importância de uma avaliação integrada. Quando sintomas físicos e emocionais coexistem e se retroalimentam, a abordagem multidisciplinar é essencial para interromper esse ciclo e promover melhora clínica e qualidade de vida”, afirmou.

Confiram, abaixo, a entrevista na íntegra.
Minha São José: Ana Amélia, existe mesmo essa relação entre a Saúde Mental e problemas do trato digestivo?
Ana Amélia J. Capuano: Sim. Existe uma relação direta, comprovada cientificamente, entre a saúde mental e o funcionamento do trato digestivo. Alterações emocionais como estresse, ansiedade e depressão podem modificar a motilidade intestinal, aumentar a sensibilidade visceral e alterar a microbiota intestinal, favorecendo sintomas como dor abdominal, diarreia, constipação, náuseas e distensão abdominal. Da mesma forma, disfunções gastrointestinais crônicas podem impactar negativamente o humor, a cognição e o bem-estar emocional. Por isso, hoje, a abordagem mais eficaz para muitos quadros digestivos é integrada, considerando simultaneamente os aspectos físicos, emocionais e comportamentais do paciente.
Quais são os transtornos, distúrbios ou condições mentais mais comuns que podem desencadear esses problemas digestivos?
Os transtornos mentais mais frequentemente associados ao surgimento ou agravamento de problemas digestivos são aqueles que envolvem ativação crônica do estresse e alterações na regulação emocional. Os principais são: Transtornos de ansiedade: especialmente o transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico e fobias. A ansiedade pode acelerar ou desacelerar a motilidade intestinal, aumentar a sensibilidade visceral e favorecer quadros como diarreia, constipação e dor abdominal. Depressão: está associada a alterações na motilidade intestinal, no apetite e na microbiota, podendo contribuir para constipação, desconforto abdominal e inflamação de baixo grau. Transtornos relacionados ao estresse: como o estresse crônico e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que mantêm o organismo em estado de hiperativação, impactando diretamente o eixo intestino-cérebro. Transtornos somatoformes: nos quais sintomas físicos, incluindo gastrointestinais, aparecem sem uma causa orgânica clara, mas com forte relação com fatores emocionais. Transtornos alimentares: como anorexia nervosa, bulimia e compulsão alimentar, que afetam diretamente o funcionamento gastrointestinal e a regulação da saciedade e digestão. Esses quadros não significam que o problema seja “apenas psicológico”, mas sim que saúde mental e saúde digestiva são interdependentes, exigindo avaliação e tratamento integrados.
Você já teve ou tem pacientes com problemas digestivos associados a problemas psicológicos? Quais são os sintomas que devem ser levados em consideração do ponto de vista físico e mental?
Na prática clínica, é bastante comum acompanhar pacientes que apresentam queixas digestivas associadas a fatores psicológicos, especialmente em contextos de estresse crônico, ansiedade, dificuldades de regulação emocional, incluindo também pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que frequentemente apresentam maior sensibilidade gastrointestinal e demandam cuidado diferenciado e individualizado. Esses quadros costumam se manifestar de forma integrada, envolvendo sinais físicos e emocionais que merecem atenção conjunta. Do ponto de vista físico, merecem atenção: Dor abdominal recorrente; Constipação e/ou diarreia; Distensão abdominal e gases; Náuseas e alterações no apetite. Do ponto de vista emocional e comportamental, observam-se: Ansiedade, irritabilidade e estresse elevado; Alterações de humor; Dificuldades de comunicação do desconforto (especialmente no TEA); Distúrbios do sono. Esses sinais indicam uma desregulação do eixo intestino–cérebro e reforçam a importância de uma avaliação integrada. Quando sintomas físicos e emocionais coexistem e se retroalimentam, a abordagem multidisciplinar é essencial para interromper esse ciclo e promover melhora clínica e qualidade de vida.
E quando procurar auxílio profissional com um psicólogo?
O auxílio profissional com um psicólogo deve ser procurado sempre que os sintomas emocionais estiverem frequentes, persistentes ou começarem a interferir na saúde física, no bem-estar e na rotina diária. No contexto dos sintomas digestivos, é indicado buscar um psicólogo quando: Os sintomas gastrointestinais persistem ou se agravam mesmo após avaliação médica; Há estresse, ansiedade, tristeza ou irritabilidade constantes; Os sintomas digestivos pioram em situações emocionais ou de pressão; Existe impacto no sono, apetite, trabalho, estudos ou relações sociais; a pessoa passa a viver em estado de alerta, medo ou preocupação excessiva com o próprio corpo ou saúde. A atuação do psicólogo é fundamental para identificar e tratar fatores emocionais associados aos sintomas, desenvolver estratégias de regulação emocional e manejo do estresse, reduzir a ativação do eixo intestino-cérebro e melhorar a qualidade de vida e o prognóstico clínico. Quanto mais precoce a intervenção psicológica, menor a chance de cronificação dos sintomas e maior a eficácia do tratamento integrado.
E para quem já está passando por ambos problemas, seria ideal buscar também um nutricionista, por exemplo?
Sim. Para pessoas que apresentam sintomas emocionais associados a queixas digestivas, o acompanhamento com um nutricionista é altamente recomendado e, muitas vezes, fundamental. O nutricionista atua na avaliação da alimentação, rotina alimentar e tolerâncias individuais; Na adequação da dieta para reduzir sintomas como gases, dor abdominal, constipação ou diarreia; Na promoção do equilíbrio da microbiota intestinal, que influencia diretamente o eixo intestino–cérebro; Na prevenção de deficiências nutricionais que podem impactar o humor, a cognição e a energia. E quando integrado ao trabalho do psicólogo e do médico, o acompanhamento nutricional contribui para a redução da inflamação intestinal, melhor resposta ao tratamento psicológico e maior estabilidade emocional e digestiva. Portanto, a abordagem multidisciplinar envolvendo psicólogo, nutricionista e médico é a mais indicada para tratar de forma completa e eficaz a relação entre saúde mental e saúde digestiva.
Além dessas, quais outros recursos podem ser aliados importantes à melhora da saúde mental e física?
Os principais são o acompanhamento médico, quando necessário, para avaliação clínica, diagnóstica e, em alguns casos, uso adequado de medicação; Atividade física regular, que auxilia na regulação do estresse, do humor, do sono e do funcionamento intestinal; Alimentação equilibrada, orientada por nutricionista, favorecendo a saúde intestinal e o equilíbrio neuroquímico; Sono de qualidade, fundamental para a regulação emocional, imunológica e metabólica; Técnicas de manejo do estresse, como respiração diafragmática, relaxamento, mindfulness e práticas contemplativas; Organização da rotina e hábitos saudáveis, reduzindo sobrecarga, excesso de estímulos e fadiga mental; Rede de apoio social, que contribui para o bem-estar emocional e para a adesão ao tratamento. A combinação desses fatores com a psicoterapia potencializa os resultados, reduz a recorrência dos sintomas e promove uma melhora global da qualidade de vida, respeitando a singularidade de cada paciente.





