Letícia e a Gerontologia: Conhecimento e dedicação à qualidade de vida dos idosos

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Ela destacou que o maior desafio da Gerontologia  no Brasil é em relação a falta de preparo do país por não ter políticas públicas adequadas para os idosos

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Inevitavelmente a população mundial vai envelhecer, ou melhor, já está envelhecendo. No Brasil, por exemplo, a população de idosos vai triplicar até 2050. E como garantir um envelhecimento mais digno para todos?

Em homenagem ao Dia do Idoso, lembrado em 1º de outubro, e para falar sobre esse assunto, que interessa não apenas aos mais velhos, mas todas as gerações, o www.minhasajose.com.br conversou com a gerontóloga Letícia Semensato Santos.

A jovem é graduada em Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar com pós-graduações (Especialização em Reabilitação Cognitiva pelo Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – HCFMUSP e o Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – IPq- HCFMUSP).

Durante a entrevista, Letícia explicou o que é, de fato, a Gerontologia e como esse estudo leva a práticas para melhorar a qualidade de vida dos idosos. “Sempre tive afeição pela melhor idade e acredito que eu não escolhi essa profissão, ela que me escolheu”, destacou.

Embora apaixonada, comprometida e dedicada à Gerontologia, Letícia também observou os desafios da área, principalmente porque o Brasil não está se preparando para o envelhecimento de sua população, inclusive no tocante a políticas públicas voltadas aos idosos.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Letícia, o que a levou a optar pela Gerontologia?

Sempre digo que foi a Gerontologia que me escolheu. Quando prestei o vestibular ainda tinha muitas dúvidas do que seria, como poderia atuar. A única certeza que tinha era que trabalharia com os idosos, no qual tinha grande afeição. Foi então na graduação que fui me encantando cada vez mais pela profissão e tendo a certeza de que tinha feito a escolha certa.

O que é, de fato, a Gerontologia?

A Gerontologia é a ciência que estuda o processo de envelhecimento em suas mais diversas dimensões. A palavra Gerontologia deriva do grego (gero = envelhecimento + logia = estudo) que significa estudo do envelhecimento. Gerontologia é o campo interdisciplinar e multidisciplinar que visa a descrição e a explicação das mudanças do envelhecimento e os seus determinantes psicológicos, socioculturais e genéticobiológicos. Além disso, abrange os aspectos do envelhecimento normal e patológico e resultam problemas tanto individuais como coletivos.

Como atua o gerontólogo?

O profissional com essa formação, devido ao aumento de idosos, a prevalência de patologias crônicas e os novos arranjos familiares busca soluções que relacionem a qualidade do cuidado, manutenção do bem-estar de vida e gerenciamento adequado de recursos humanos e financeiros.  O gerontólogo é humanista, crítico e reflexivo, é capaz de compreender, criar, gerir, desenvolver e avaliar formas de apoio ao idoso e seus cuidadores familiares e profissionais. Também é capacitado para atuar na gestão da velhice saudável e fragilizada, pautado em princípios éticos e informações científicas em relação à saúde do idoso; é preparado para atuar em contextos multiprofissionais e multidisciplinares na perspectiva da gestão de diferentes questões que surgem individual e coletivamente na velhice. Sua ação é pautada por responsabilidade social e ambiental, compromisso com a cidadania e com o sistema de saúde, capaz de produzir conhecimento em Gerontologia e torna-la acessível à população em geral.

Sabemos que a população brasileira está envelhecendo. Hoje, quais são os principais desafios da Gerontologia para auxiliar no envelhecimento saudável?

O maior desafio da Gerontologia para auxiliar no envelhecimento saudável é em relação a falta de preparo do país, por não ter políticas públicas adequadas para essa população específica, pois o Brasil não está planejado para lidar com as diversas situações que acometem esse público, que cresceu e ainda está crescendo consideravelmente com o aumento da expectativa de vida nos últimos anos. Outra dificuldade é em relação a compreensão das pessoas de que o processo de envelhecimento é um espelho de toda a vida, por isso a prevenção de doenças e a promoção de saúde são fundamentais para a garantia de uma vida longa e saudável.

Você mais ensina ou aprende com seus pacientes idosos?

Acredito que a troca de ensinamentos é mútua. Cada geração tem algo novo para compartilhar, ensinar e aprender, nenhuma é melhor do que a outra. Os conhecimentos adquiridos em minha formação associado às sabedorias e experiências vividas dos idosos, podem trazer benefícios para ambos. Creio que nessa troca de saberes entre eles e eu, abordamos a vivencia por meio de entusiasmo, alegria e espontaneidade, transcendendo o hoje e fazendo com que os idosos resgatem suas memórias pelo conhecimento, segurança e apoio.

Quais os locais onde você já trabalhou e onde trabalha atualmente?

Atualmente tenho um consultório aqui em São José do Rio Pardo, localizado à rua Carlos Botelho nº777, e também realizo atendimentos domiciliares, tanto no município como na região.  Trabalhei por quase três anos na Unimed Rio Pardo, além de um extenso histórico de estágios durante a graduação em lugares como Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Referências Especializados para idosos.

Na Reabilitação/Estimulação Cognitiva, Letícia cria estratégias para os idosos inserirem no dia a dia para suprir as dificuldades, além de utilizar jogos educativos que estimulam e favorecem os bons resultados no tratamento

E os tipos de atividade/trabalho que você presta?

Realizo Avaliação Gerontológica, que tem como finalidade avaliar o idoso por meio de testes validados e de habilidade gerontológica para rastreio das dimensões de ordem mental, física e social para futuras intervenções.  Faço sessões de Reabilitação/Estimulação Cognitiva, que tem como objetivo favorecer o autoconhecimento, a autocrítica e a metacognição; aumentar a atividade e participação social; promover maior independência nas atividades de vida diária; prevenir o envelhecimento cerebral e incrementar a qualidade de vida. Também ensino os idosos a usarem seus smartphones, tablets ou notebooks na Oficina de Tecnologis 60+, que facilita as relações sociais e a atualização com o mundo, permite a autonomia e a independência, além de que evita com que se sintam excluídos diante de tantos avanços. Realizo palestras, consultorias e capacitações de familiares e/ou cuidadores sobre acessibilidade domiciliar, doença de Alzheimer e demais especificidades do processo de envelhecimento.  

O que é o melhor e o que é o pior na Gerontologia?

O que tem de melhor na Gerontologia é a possibilidade de contribuir que a população tenha um processo de envelhecimento com qualidade, além de entender e amenizar os problemas que atingem esse público, já que nossa expectativa de vida está aumentando e devemos buscar bem-estar nesse momento. Acredito que o que tem de pior ainda seja a falta de conhecimento sobre a profissão, e com isso ainda surjam muitas dúvidas e questionamentos e até mesmo o não entendimento dos benefícios que o gerontólogo pode proporcionar aos idosos. E a resistência das pessoas em buscar por cuidados preventivos, declarando que só é necessário para aqueles que apresentam algum diagnóstico.

Qual foi o momento que mais lhe marcou até hoje na profissão?

Diversos momentos me marcaram na profissão e me proporcionaram muitos aprendizados. Tenho várias lembranças boas, mas em especifico duas histórias. A primeira foi uma idosa que me procurou para aprender como usar o smartphone para poder ter contato com sua neta que estava indo estudar em outro país. Atualmente, ela conversa com sua neta todos os dias, por meio de mensagens escritas, áudios e video-chamadas, além de também me enviar mensagens carinhosas frequentemente. Seus familiares relatam que ela se redescobriu com o celular. Outro momento que me marcou muito foi atender uma idosa com aproximadamente 65 anos diagnosticada com Alzheimer na fase moderada, apresentando dificuldade para falar e se expressar com clareza, de reconhecer cores, de nomear objetos, esquecendo fatos importantes e nomes de pessoas próximas. Hoje, após alguns meses de estimulação cognitiva, ela consegue concluir seus pensamentos, identificar e nomear cores e objetos, e principalmente evocar o nome de seus filhos que antes eram chamados de “irmãozinhos”.

Quais são seus planos para o futuro?

Para o futuro tenho muitos planos, gosto de sempre estar me atualizando com cursos, congressos, seminários e dentre outros, já que estamos em constantes transformações e avanços em todas as áreas. Tenho alguns planos já no papel, que precisaram ficar armazenados neste período de pandemia, mas que no próximo ano espero começar a realizá-los e assim contribuir com os idosos, familiares e cuidadores do nosso município e de toda região!

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