Filomena Perrella: Após 30 anos fora, a saudade falou mais alto e ela voltou à terra natal

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Ela contou sobre a carreira na Paraíba e em Mato Grosso do Sul, recordações e também dos projetos que gostaria de ver implantados em São José

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

“Meu coração sempre esteve ligado à essa cidade; é um amor inexplicável. São José do Rio Pardo sempre foi a melhor cidade do Brasil”. Talvez por esse sentimento de amor e saudosismo, a entrevistada desta semana do espaço “Cadê Você?” tenha regressado ao município cortado pelo rio Pardo após mais de três décadas morando fora.

Filomena Maria Perrella Balestieri é o que podemos chamar de ‘filha da terra que não nega e orgulha-se de suas origens’. Ela saiu de São José com apenas 18 anos para estudar em Campinas e quase não acreditou que havia passado no vestibular da UNICAMP, já que não havia feito cursinho. “Durante a vida escolar sempre estudei em escolas públicas, entre elas a E.E. Tarquínio Cobra Olyntho, E.E. Prof. Jorge Luís Abichabki e E.E. Euclides da Cunha”, contou.

Além da formação em Ciências Biológicas, ela também é mestre e doutora em Imunologia e cursou Psicologia, concluindo o curso em 2015. E para quem pensa que aos 61 anos já parou de estudar, engana-se. “Estudo Teoria Musical e Violino com o professor Akira Miyashiro e Canto com o professor Demerval Keller. E ainda pretendo, se possível, fazer graduação em História e em Filosofia”, afirmou.

Ao longo da entrevista, Filomena contou um pouco de seu êxito profissional, principalmente no nordeste brasileiro, nos estados da Paraíba e Bahia, além de Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. Ela também falou sobre trabalho voluntário em psicologia, das saudades de Rio Pardo enquanto morou fora e, como apaixonada pela terra natal, destacou alguns projetos que gostaria de ver implantados no município, principalmente nas áreas Ambiental e Cultural.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Filomena, qual é a sua formação profissional?

Filomena Aparecida Perrella Balestieri: Sou Graduada em Ciências Biológicas, Bacharelado e Licenciatura pela UNICAMP. Mestre em Imunologia pela UNICAMP e Doutorado pela USP. Também possuo graduação em Psicologia pela Unigran (Dourados, MS).

Filomena no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da Universidade Federal da Paraíba, onde trabalhou por 19 anos, inclusive como docente

Qual foi o motivo de sair de São José tão jovem?

Eu saí de São José porque queria cursar Ciências Biológicas na UNICAMP e isso ocorreu em 1978, quando eu tinha 18 anos. O interessante é que eu não esperava passar no vestibular porque eu não havia feito cursinho e fui fazer o vestibular apenas para ter a experiência. A partir do momento em que passei na primeira fase da FUVEST, fiz a segunda fase pensando que teria que estudar mais. O que me ajudou foi o fato de estar tranquila e responder a todas as questões, mesmo duvidando se o meu conhecimento era suficiente. Quando saiu o resultado fiquei surpresa porque não esperava que o meu rendimento propiciasse a entrada na UNICAMP. Assim, em 1978, quando passei no vestibular, me mudei para Campinas e lá fiquei até 1986.  

Qual foi seu primeiro emprego na área? Quais outros trabalhos desempenhou no tempo em que ficou fora de São José?

Eu concluí a graduação e logo ingressei no Mestrado. Em 1986, fiz um concurso público para professora de Imunologia na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. Fui professora de imunologia e fiz pesquisas na área de fitoterápicos e imunologia das leishmanioses, durante 19 anos, de 1987 até 2006 no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica (LTF), da UFPB. Em agosto de 2006, fiz uma transferência para a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em Dourados (MS) e trabalhei durante 11 anos na Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA). Na UFGD, além da Imunologia, ministrei duas disciplinas que me deram a oportunidade de integrar conhecimentos da área biológica e da psicologia: Psiconeuroimunologia e Corpo, Saúde e Sexualidade. Nessas disciplinas pude propiciar aos alunos vivências de yoga e meditação. A psiconeuroimunologia é uma área que estuda a interação entre os aspectos mentais (psico), os neurotransmissores (Sistema Nervoso) e os hormônios (Sistema Endócrino) e seus efeitos sobre a resposta imune. Quando são abordados os aspectos mentais, nos estudos de psiconeuroimunologia, deve-se levar em consideração o estilo de vida, a personalidade e o contexto sócio-econômico e cultural das pessoas. Desta forma, o meu interesse pela psiconeuroimunologia abriu a possibilidade de fazer parte do corpo docente do Mestrado em Ciências das Religiões da UFPB, abordando a importância da espiritualidade/religiosidade nos mecanismos envolvendo os sistemas nervoso, endócrino e imune.

Durante o tempo em que esteve fora de sua terra natal, qual foi o maior aprendizado?

 A minha experiência foi muito enriquecedora quanto ao aspecto humano porque pude conviver com a diversidade da população brasileira. Dos meus 61 anos, vivi 31 anos no Sudeste (estado de São Paulo), 19 anos no Nordeste (João Pessoa e Salvador) e 11 anos no Centro-Oeste (Dourados). O maior aprendizado foi compreender a diversidade de expressão das pessoas de acordo com as culturas específicas de seus estados; isso me propiciou uma compreensão mais profunda do ser humano.

Neste registro de 2008, Filomena ministrando aula na UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados, em Dourados/MS

E qual foi a sua maior saudade de São José neste período?

A maior saudade de São José sempre foi em relação às montanhas verdes que nos circundam; mas também em relação ao casario antigo, o calçamento de pedras, a preservação da nossa história, a tradição euclidiana. Algo que sempre gostei daqui também é a possibilidade do encontro casual com os amigos nas caminhadas pela cidade. Minha mãe morou em São José até 2001, ano de sua morte, e estar com ela era uma das coisas que me fazia sempre retornar. Até hoje, eu e minha família nos reunimos no final do ano porque todos gostam da cidade.

Soube que você também é autora de alguns livros, sendo de Biologia e Poesias. Poderia contar um pouquinho sobre eles?

A minha principal obra de cunho cientifico foi o livro “Imunologia”, publicado pela Editora Manole, de São Paulo, em 2006. A Imunologia é uma disciplina complexa e, após dezessete anos ministrando essa disciplina, senti vontade de fazer uma síntese do meu aprendizado e assim surgiu o livro. Foi um período em que me senti muito feliz porque adoro estudar e escrever. Eu estudava, escrevia, fazia as ilustrações do livro; foi uma trajetória diária de escrita, durante três anos. Quanto à poesia, eu sempre gostei de expressar meus sentimentos pela escrita e o fazia desde a minha adolescência, mas não imaginava que, um dia, iria ter meus poemas, crônicas ou contos publicados. Em 2009, tive contato com a Andross Editora, de São Paulo; o seu editor Edson Rossatto tem uma iniciativa muito interessante que é dar voz à escritores iniciantes. E assim surgiu a minha primeira participação em uma antologia chamada “Ecos da Alma”. Além de ter sido o primeiro, esse livro é muito importante porque nele está um poema “O som das profundezas”, que escrevi em homenagem a minha mãe. Quando fui ao lançamento do livro, fui surpreendida com a leitura desse poema; eles haviam selecionados alguns e o meu foi um deles; foi muito gratificante. A partir daí, tive poemas publicados em outras cinco antologias, além de dois microcontos, quatro contos e uma crônica publicados em outros cinco livros. O conto “A dança das horas”, que foi publicado no livro Música que me faz (2019), foi o que mais gostei e é inspirado na obra musical homônima do compositor italiano Ponchielli. Ao todo participei de onze antologias e um exemplar de cada um desses livros foi doado à nossa Biblioteca Municipal porque fico feliz em fazer parte do grupo de pessoas que deixou um pouco de si na história da cidade. No momento e o que tem me ajudado a lidar com a pandemia, é o fato de estar escrevendo microcontos inspirados nas cores. A ideia é publicar um livro de microcontos de minha autoria.

Por que decidiu voltar a morar em São José? Em que ano isso ocorreu?

Durante esses trinta anos longe de São José, o meu sonho sempre foi voltar para cá. Meu coração sempre esteve ligado à essa cidade; é um amor inexplicável. Os meus familiares até brincam comigo porque, para mim, São José sempre foi a melhor cidade do Brasil. Aqui eu me sinto em casa… como se cada pedra do calçamento da cidade me conhecesse… Gosto do aspecto histórico, cultural, as pessoas, a minha história e dos meus familiares. Por sinal, meu avô materno e um de seus irmãos sempre tiveram esse sonho… de voltar para cá. Eu me aposentei no dia 01 de outubro de 2017  e chegamos em São José no dia 06 de outubro, eu, meu marido, Lelo e Nina (meus gatos douradenses).

Filomena durante o lançamento de seu livro “Imunologia”, 2005, em João Pessoa/PB

Como apaixonada pela cidade natal, quais projetos que você gostaria de ver implantados na nossa cidade?

Creio que precisamos plantar mais árvores na cidade e cuidar dos espaços nas regiões beira-rio. As pessoas que viajam para países europeus ficam encantados com os cuidados que se tem com as margens dos rios; geralmente são locais arborizados, com recantos de convivência. Aqui, na nossa cidade, ao lado do Recanto Euclidiano, existia um local de convivência que se encontra sem os cuidados necessários e seria tão bom ter ali uma área verde, com parquinho para crianças, academia ao ar livre, uma pista de caminhada.  Além do aspecto ambiental, creio que a nossa cidade merece um Teatro Municipal. A cidade tem um potencial cultural e artístico visível pelo investimento no Polo do Conservatório de Tatuí e a Fábrica de Expressão, nos eventos da Semana Euclidiana e por isso creio que mereça um espaço que reúna as várias expressões artísticas da população.

Atualmente você se dedica a alguma atividade profissional aqui na cidade?

Como sempre gostei de estudar, quando faltavam seis anos para me aposentar comecei a cursar Psicologia e me formei em 2015. Hoje atuo como psicóloga e estava realizando um trabalho voluntário, como psicóloga, na E.E. Tarquínio Cobra Olyntho, quando a pandemia interrompeu esta atividade que estava me fazendo muito feliz. Além da atividade profissional, como gosto sempre de estudar, atualmente sou aluna da escola de Música Doremização, que está funcionando, durante a pandemia, de forma on line. Estudo Teoria Musical e Violino com o professor Akira Miyashiro e Canto com o professor Demerval Keller. E ainda pretendo, se possível, fazer graduação em História e em Filosofia.

Para finalizar, que conselhos deixaria para aqueles que estão fora e ainda pensam em voltar a morar e trabalhar em São José?

É muito difícil dar um conselho dessa natureza porque a cidade nem sempre oferece possibilidades para determinados tipos de atividade, como foi o meu caso. A minha sugestão é que a pessoa esteja sempre em contato com a cidade e passe férias aqui. Além disso, dependendo da profissão, pode-se entrar em contato com profissionais da área de trabalho e participar de eventos aqui e da região, promovendo um intercâmbio de experiências e criando pontes para uma possível residência na cidade.

Filomena e sua mãe, dona Dita Perrella, no ano 2000
Neste registro, em 199, Filomena junto aos irmãos José Antônio Perrella Balestieri (à esquerda da foto) e José Benedito Perrella Balestieri (à direita)
Momento descontração: Filomena de férias em São José do Rio Pardo em 1992

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