Câncer do Colo do Útero: A Fisioterapia como aliada no tratamento de mulheres diagnosticadas com a doença

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“Durante o tratamento da doença, muitas vezes a mulher se sente receosa em ter relação sexual. No entanto, se não há qualquer fator agravante, a relação não é proibida”, destacou a fisioterapeuta Karina

Em alusão à campanha Março Lilás, cujo mês é dedicado à conscientização e prevenção ao Câncer do Colo do Útero, trazemos entrevista com a fisioterapeuta credenciada ao SAVISA, Karina Delgado Maida Uchiyama, que é graduada em Fisioterapia pela USP de Ribeirão Preto, Doutora em Ciências pela USP de Ribeirão Preto, possui Título de Especialista em Fisioterapia em Saúde da Mulher emitido pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Associação Brasileira de Fisioterapia em Saúde da Mulher, além de Especialista em Psicologia e Sexualidade.

Ao longo da entrevista, concedida à jornalista Natália Tiezzi e publicada originalmente no Informativo SAVISA, ela explicou como a Fisioterapia pode ser aliada durante o tratamento de mulheres já diagnosticadas com a doença.

Karina também destacou que a Fisioterapia tem papel importante na orientação das mulheres com relação à prevenção do câncer do colo do útero, além de dispor de atividades que auxiliam a mulher a ter práticas mais saudáveis relativas à sexualidade.

Confira, abaixo, a matéria na íntegra, tire suas dúvidas e previna-se!

Karina, o que é exatamente o colo do útero?

Karina Maida Uchiyama: Colo do útero nada mais é que a porção inferior do útero que entra em contato com o canal vaginal. É como se fosse a parte que fica na transição entre útero e canal vaginal. Basicamente é aquela região que no final do canal da vagina que o médico/médica observa nos exames para averiguar alguma alteração.

Qual a relação entre a fisioterapia e o câncer do colo do útero?

Nós, fisioterapeutas, não podemos realizar exames ou dar diagnóstico para câncer de colo de útero. No entanto, podemos atuar de muitas formas, da orientação para prevenção da doença ao auxílio no tratamento da mulher com este tipo de câncer.

Quais são os tratamentos que a fisioterapia oferece a pacientes diagnosticadas com a doença?

A fisioterapia pode atuar da fase inicial à fase final do tratamento destas mulheres. Na fase precoce, devemos pensar nas mulheres que farão a cirurgia de retirada do útero (histerectomia). Para elas, é necessário realizar um bom preparo do seu assoalho pélvico para que, após a cirurgia, consigamos reduzir a chance de dor ou até mesmo a chance de a “bexiga cair”. No pós-cirúrgico imediato, podemos atuar cuidando para que a cicatrização ocorra de forma adequada e ordenada, além de atuar na mobilização precoce, o que previne inúmeras complicações, entre elas trombose. Além disso, uma das mais importantes atuações é nas mulheres que necessitam passar por braquiterapia, que é um tipo de radioterapia realizada através do canal vaginal, ou seja, de forma bastante invasiva e direta. O problema desse procedimento é que ele pode causar o que chamamos de estenose vaginal, que é quando o canal vaginal se fecha e fica rígido, de tal forma, que pode nunca mais conseguir abri-lo. É uma consequência muito ruim, pois tem fortes impactos sobre a vida sexual, além de poder gerar dor e desconforto para mulher. Nestes casos, a fisioterapia tem de ser iniciada desde a primeira sessão de braquiterapia, utilizando seus diversos recursos como dilatadores vaginais, por exemplo, para impedir que o canal se feche de forma definitiva – repito, não podemos esperar aqui para pedir ajuda a um fisioterapeuta, uma vez que a estenose se instala, pode se tornar irreversível, o tratamento deve ser extremamente precoce! Passado o período de cirurgia e possível quimio ou radioterapia, a fisioterapia atua reabilitando a mulher como um todo, desde a recuperação da massa muscular e capacidade respiratória, até a volta da sua vida sexual, sem dor e prazerosa.

Por falar nisso, a mulher pode sentir prazer sexual, por exemplo, mesmo em tratamento contra o câncer do colo do útero?

Durante o tratamento da doença, muitas vezes a mulher se sente receosa em ter relação sexual. No entanto, se não há qualquer fator agravante, a relação não é proibida. Por outro lado, se foi realizada a cirurgia para retirada do útero, deve-se aguardar cerca de 45 a 60 dias para voltar a ter uma vida sexual ativa, mas tudo depende do tipo e técnica cirúrgica realizada, e obviamente, da liberação médica. Então, a relação sexual não é proibida, desde que haja a liberação médica em cada fase do seu tratamento. E é possível ter prazer? A reposta é sim! Mas temos que pontuar algumas coisas. Para se sentir prazer na relação sexual, deve-se, primeiramente, estar com seus pensamentos positivos e tranquilos. A mulher deve entender que o sexo não piora o câncer, e tampouco aumenta o risco de uma recidiva. Deve entender também, que seu corpo é lindo, independentemente do tratamento que está realizando. Assim, se a mulher está bem consigo mesma e segura, já é um passo enorme para conseguir relaxar e sentir prazer. Se você está preocupada, ansiosa ou deprimida, você provavelmente não sentirá desejo sexual e muito menos prazer, então, relaxe! Tire um tempo para se cuidar e se amar.

Mas, esse tipo de tratamento contra o câncer pode trazer algum comprometimento à prática sexual da mulher?

Pois, é. Não podemos nos esquecer das consequências que os tratamentos podem trazer e atrapalhar o prazer sexual, por exemplo: fibrose e estreitamento da vagina (já falamos sobre isso anteriormente, é a estenose vaginal); secura vaginal; mucosa vaginal sensível. Tudo isso pode atrapalhar e gerar dor na relação, mas a mulher deve entender que tudo isso tem tratamento, e a relação sexual não deve de forma alguma ser uma tortura, ela deve procurar ajuda, sem medo e sem ter vergonha de falar sobre o assunto (sexo faz parte da vida e da saúde, parem de ter medo de falar sobre isso, ok?). Massagem perineal, óleo de coco, géis lubrificantes a base de água, exercícios pélvicos, estimulação de pontos sensíveis como os grandes lábios e clítoris, são apenas alguns exemplos dos recursos que podemos utilizar para que as mulheres em tratamento de câncer de colo de útero retomem as rédeas do seu prazer sexual. Mas lembrando, se você está fazendo quimioterapia, o seu sistema imunológico pode estar frágil, e aqui, é especialmente importante evitar doenças sexualmente transmissíveis. Portanto, nunca se esqueça de praticar o sexo com o uso de preservativos!

Para finalizar, há possibilidades de a Fisioterapia prevenir o câncer do colo do útero?

Não há como a fisioterapia em si prevenir este tipo de doença, o que podemos fazer é dar orientações sobre o assunto às nossas pacientes. Por exemplo:

– Nunca faça sexo desprotegido, pois há risco de se contrair o HPV, um vírus que está relacionado com a maioria dos casos de câncer de colo de útero;

– Vacine seus filhos com a vacina do HPV (esse maravilhoso advento da ciência!);

– Tenha uma vida saudável, não fume e pratique atividade física, também é uma forma importante de prevenção para diversos tipos de neoplasias.

– Consulte regularmente seu ginecologista para realização do exame da Papanicolau!! (na pandemia, muitas mulheres simplesmente deixaram de fazer este importante exame de rotina, agora é hora de tirar esse atraso!).

Adicionalmente, durante as consultas de fisioterapia, se nos é relatado sintomas suspeitos tais como: sangramento anormal ou sem explicação; dor na relação sexual seguido ou não de sangramento sem outra explicação clínica; dor pélvica, também sem explicação clínica; conseguimos chamar a atenção e orientar para que procure atendimento médico o mais rápido possível – o diagnóstico precoce aumenta substancialmente o sucesso do tratamento!

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