Algemira Pinheiro de Souza: 43 anos de trabalho dedicados à Sociedade Lar da Infância

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Aos 72 anos, ela esbanja disposição, dedicação e que pretende ficar por muitos anos à frente da entidade

É impossível falar do ‘Lar da Infância’, como é popularmente conhecido na Vila Formosa e bairros adjacentes, sem lembrar em Algemira Pinheiro de Souza. Aos 72 anos, ela já dedicou 43 deles ao trabalho exemplar desenvolvido na Sociedade que, atualmente, assiste 108 crianças, entre 1 e 13 anos.

Natural de Casa Branca, Algemira mudou-se com sua família para São José ainda criança, com pouco mais de três anos, e aos oito já começou a trabalhar, entretanto, nunca deixou os estudos de lado: formou-se em Pedagogia e utiliza muito o conhecimento adquirido na faculdade e o amor ao trabalho para transformar a vida de milhares de crianças que já passaram pelos seus cuidados.

“Sempre gostei muito de criança. Aos oito anos meu primeiro trabalho foi ajudar a cuidar dos filhos pequenos de uma vizinha. Embora trabalhasse, minha mãe sempre fez questão que eu estudasse, já que perdi meu pai com apenas seis anos. Ela enxergava um futuro melhor para mim nos estudos. E assim fui conciliando o trabalho e a escola até me formar”, disse.

A história de Algemira com a Sociedade Lar da Infância começou por acaso, quando ela conheceu alguns missionários holandeses na igreja em que frequentava. “Essas pessoas me convidaram para fazer parte da diretoria de um internato que seria aberto aqui em São José, direcionado a meninos órfãos, mantido pela Igreja Presbiteriana do Brasil, que também possuía vínculos com igrejas evangélicas na Holanda. Estava no final do curso na faculdade e tive pouco tempo para lecionar, pois aceitei o convite e estou aqui até hoje!”, explicou.

Aos poucos o internato foi se desfazendo e no final da década de 70 e início dos anos 80 foi criada uma creche. “Um grande amigo, o saudoso Natal Bortot, que, durante uma conversa, me disse que essa região era muito carente e as crianças, que eram muitas, necessitavam de uma creche para ficar enquanto as mães pudessem trabalhar. E foi assim que ela aconteceu. Aos poucos o internato acabou dando lugar à creche”.

O DIA-A-DIA NO LAR DA INFÂNCIA
Até hoje a maior parte dos recursos para manter a Sociedade vem da Holanda, por meio de missionários de diversas igrejas. “Tudo que realizamos aqui, inclusive projetos e o dia-a-dia das crianças é registrado e enviado à Holanda como uma espécie de ‘prestação de contas’. Inclusive já fui pessoalmente àquele país para contar um pouco sobre a rotina do Lar da Infância”, informou.

É assim que Algemira gosta de ficar: sempre junto às crianças

Algemira disse ainda que a população rio-pardense sempre se mostrou solidária à entidade e que recebe muitas doações durante o ano, inclusive de empresários e comerciantes.

O dia-a-dia na Sociedade é, digamos, ‘puxado’. E apesar das mais de 10 horas de trabalho por dia, revezados com mais dois membros da coordenação, Algemira faz questão de acompanhar o desenvolvimento das crianças, com todo cuidado e responsabilidade que lhe é peculiar.


Além da creche, que atende crianças de 1 a 6 anos, no espaço também funciona a EMEB Pequeno Samuel, sendo esta mantida pela Prefeitura. A Sociedade ainda possui um projeto de socialização, que atende adolescentes de 12 a 18 anos. “Este projeto, realizado aos sábados, uma vez sim outra não, aborda, por meio de debates e palestras, assuntos de interesse dos jovens como drogas, violência. Também fazemos um momento de oração com eles, bem como atividades físicas. São cerca de 30 participantes por sábado e todos gostam muito de vir, principalmente porque são muito carentes deste tipo de informação em família”.

AS CRIANÇAS DE ONTEM E HOJE: QUANTA DIFERENÇA…
E por falar em família, Algemira ressaltou que a maior parte das crianças que apresentam algum problema comportamental acontece em decorrência da desestrutura familiar ou pelo mal exemplo que têm em casa. “Já tivemos e ainda temos muitas crianças que apresentam esses problemas de comportamento, mas notamos que isso é o reflexo de tudo que elas veem em casa ou pela falta de uma mínima estrutura familiar, que favorece essas atitudes mais agressivas e rebeldes”.

Algemira informou que estes casos são levados ao conhecimento da psicóloga que presta atendimentos à Sociedade, bem como a própria equipe de professores tenta dar todo apoio para que essa criança tenha condições de melhorar seu comportamento. “Fazemos orações, independente de religião, e eu mesmo converso muito com elas. Certa vez um menino que frequentava a creche chegou até mim e disse que queria me matar. Questionei o motivo para isso. Ele disse que havia escutado o pai dele dizer que iria matar a mãe e por isso também iria me matar… O exemplo dentro de casa é tudo na vida de uma criança, principalmente nos seus primeiros anos. Além disso, apesar das modernidades do mundo, a família continua sendo a base de tudo, principalmente na educação e respeito com o próximo e a maneira como aquele indivíduo vai conviver em sociedade”.

Ela destacou que por isso existe tanta diferença entre as crianças dos anos 80 e as de hoje em dia. “Antigamente, quando eu comecei a trabalhar aqui, as crianças eram diferentes sim. As mães e os pais eram mais presentes na vida delas e isso faz toda a diferença na vida adulta… Hoje o que vejo são muitas meninas engravidando e deixando a responsabilidade de criar seus filhos para as avós, já que ficam grávidas muito cedo e transferem o seu papel de cuidar e educar, enfim, de exercerem seu papel de mães para outras pessoas”.

Algemira também abordou a questão do trabalho na adolescência. “Acredito que o governo deveria criar oportunidades para todas as crianças, principalmente as mais carentes, no contraturno escolar, o que poderia ser através de cursos profissionalizantes. Às vezes o adolescente até tem vontade trabalhar, mas não pode ou então não consegue uma qualificação”.

RECONHECIMENTO, AMOR E GRATIDÃO AO TRABALHO
Sempre muito disposta ao trabalho voluntário que desenvolve atualmente na Sociedade como presidente, Algemira enfatizou seu amor por aquele espaço e a importância dele em sua vida. “Não tive filhos, mas é como se eu tivesse tido centenas, pois ajudei a cuidar de muitas e muitas crianças. É gratificante quando uma mãe ou um pai vem até aqui me agradecer pelo que fiz pelos seus filhos. Mais gratificante ainda é quando vejo crianças que por aqui passaram se tornarem adultos conscientes e cidadãos”, observou.

Algemira ainda recebe muitas pessoas que passaram sua infância na creche. “Dia desses chegou aqui um homem de pouco mais de 50 anos, com seus filhos, netos e disse a mim que havia frequentado aqui quando era pequeno. Ele me agradeceu pelos ensinamentos que carrega até hoje para sua vida. Outra visita que marcou muito foi de duas mocinhas, que saíram daqui já faz uns 7 anos e disseram que quando eu ficasse bem velhinha cuidariam de mim. Fiquei emocionada, pois tenho certeza que a semente que plantamos está germinando para o bem”.

E a presidente não é querida apenas pelas crianças que frequentam ou já frequentaram o Lar da Infância. A equipe de trabalho demonstra muito carinho, respeito e admiração por ela. “É óbvio que por vezes tenho que ser mais enérgica com as crianças, mas isso não as afasta de mim. Ao contrário: sinto que sou muito querida e respeitada por elas”, frisou.

Sobre o futuro, Algemira disse que pretende prestar seus serviços e conhecimentos à Sociedade até quando Deus lhe permitir. “Enquanto eu tiver saúde estarei aqui. Eu amo meu trabalho e me dedico porque tenho muita admiração por tudo isso. Uma história que também faço parte um pouquinho”, disse, modestamente.

CAMPANHA PARA MANUTENÇÃO DO PRÉDIO
Algemira informou que o prédio da creche necessita de pintura interna, além de reparos em parte do telhado. Quem quiser contribuir para essas reformas deve entrar em contato pelo telefone 3608-4626, falar com a presidente, que passará mais detalhes.

Amor e dedicação ao trabalho: “Vou trabalhar aqui na Sociedade Lar da Infância enquanto Deus me permitir”

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