Muito além do movimento: Dr. Marcelo Martini fala dos benefícios e prazeres da Dança de Salão
Entrevista e texto: Natália Tiezzi
A arte de dançar pode ser muito mais que apenas movimentar o corpo: ela completa o ser humano, despertando alegria, relaxamento e aprendizado, assim como aconteceu com o advogado Dr. Marcelo Scigliani Martini seis anos atrás, quando, efetivamente, começou a praticar a Dança de Salão.
Aos 44 anos, ele encontrou nas aulas, que pratica gratuitamente com o professor Alexandre Cardoso, oferecidas pela Fábrica de Expressão, um momento para se divertir, para relaxar e, claro, para aprender algo novo, que lhe proporcionasse prazer.
Em entrevista às Mídias Minha São José, o profissional, que atua há 17 anos na advocacia em Rio Pardo e região, primeiramente agradeceu a oportunidade de falar sobre a Dança de Salão, ressaltou sobre como ela conquistou espaço importante em sua rotina, assim como o que lhe inspirou a dançar, além de também destacar sobre ‘vergonha’ e ‘preconceito’, até inerentes à essa atividade, mas que são superáveis a cada passo aprendido e dançado.
“A dança exige comprometimento, estudo, responsabilidade e empenho, como tudo o que fazemos na vida para alcançarmos o que queremos. A aula de dança não é só para “passar tempo”: é um local de desenvolvimento mental e físico”, afirmou.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Minha São José: Marcelo, desde quando e por que você pratica a Dança de Salão?
Dr. Marcelo Scigliani Martini: Eu frequento as aulas, efetivamente, desde o final de 2020. Já havia feito algumas aulas esporádicas antes, mas na época não consegui encaixar na minha rotina. Em relação ao porque praticar, eu sempre tive preferência por atividades mais solitárias, como corrida, musculação, boxe e etc. Antes da dança, eu pratiquei boxe por dez anos, com o mestre Paulo Surian, e vi que a dança de salão (ou de casal) seria bem desafiante, uma vez que há outra pessoa dançando em conexão com você. Uma coisa é você dançar sozinho. Outra coisa é você dançar com uma outra pessoa que depende da sua condução, sua movimentação, sua interpretação e tudo mais. Esse foi um dos pontos que me atraiu à dança de salão.
Teve algum motivo especial que te levou à Dança?
Desde criança eu sempre gostei de ver meus pais dançarem de casal. Quem é daqui da cidade sabe que eles sempre estão pelos bailes. Onde tem baile, o Marinho e a Cidinha estão lá marcando presença. Eles também sempre tiveram muito bom gosto musical, que abrangia cantores desde Emílio Santiago a Franck Sinatra. Então cresci vendo-os dançando e ouvindo cantores e bandas de extrema qualidade. Foi por essa vivência que eu tive que me fez querer aprender a dançar de casal.
Quantas vezes por semana e onde ocorrem os ensaios?
As aulas ocorrem cinco vezes por semana, gratuitamente, de segunda a sexta-feira, no Mercado Municipal, na praça Barão do Rio Branco. Nas segundas-feiras às 19h é aula de Forró (iniciantes) e às 20h é aula de Bolero (para intermediários). Nas terças-feiras é aula de Samba de Gafieira, sendo às 19h para iniciantes e às 20h para intermediários. Nas quartas-feiras é aula de Bolero, sendo às 19h para iniciantes e às 20h para intermediários. Nas quintas-feiras e nas sextas-feiras, as aulas são a partir das 18h, e são outras modalidades de ritmos que o professor define para ajudar a trabalhar o corpo e as questões técnicas da dança. Quem quiser maiores informações, só entrar em contato com a Fábrica de Expressão.

Marcelo, em algum momento você sentiu vergonha ou sofreu algum preconceito ao dançar?
No começo sentia vergonha sim. Acho que todos nós sentimos quando começamos algo novo. Mas, era mais porque os passos saiam desengonçados, sensação de desconforto, falta de coordenação. Se assemelha muito à sensação de quando começamos a aprender a andar. Mas é uma fase que todos que querem dançar bem, de verdade, vão ter que passar. Hoje a vergonha não existe mais. E quanto ao preconceito, isso sempre vai ter. Onde existir o ser humano, vai ter preconceito. A diferença é se você vai deixar isso te abalar ou não. A mim, só serve de combustível para melhorar minha dança. Mas na mesma medida que o preconceito existe, também existe os que elogiam e admiram os que dançam.
O que a Dança mudou ou representa em sua vida?
Creio que todos nós temos uma atividade na nossa vida que serve de “fuga” da nossa realidade do dia a dia, como forma de relaxar, divertir, aprender e etc. A dança pra mim, é isso. É um momento que se torna de diversão, relaxamento e aprendizado, independente de ser na aula, ou nos bailes em que vamos dançar. A dança de salão te faz ser feliz, sem você perceber.
Como você definiria dançar?
Falando tecnicamente, dançar é a arte de saber trocar/passar o peso corporal. É saber e controlar quando seu peso estará na perna esquerda, na perna direita, ou dividido entre as duas. Parece simples né, mas estamos tão habituados a movimentos tão mecânicos, que no passar dos anos perdemos esse tipo de controle corporal. Eu gosto de dizer que a dança de salão devolve o controle da mente sobre o corpo. Explico: vou usar a caminhada de exemplo. Muitas vezes caminhamos pela rua como uma forma mecânica. A perna avança “sem controle” na medida que projetamos o corpo à frente. A dança de salão te ensina a controlar se sua perna vai avançar, o quanto ela vai avançar e onde você vai escolher pisar. Você aprende que, mesmo que projetando seu corpo, a sua perna vai pisar onde você decidir pisar, e não de forma consequente e mecânica. E tudo isso ainda conduzindo sua parceira de dança. Se alguém falar que é fácil dançar de casal, está totalmente equivocado. Fácil não é, mas na medida que vai aprendendo, estudando, fazendo as aulas, se empenhando, é indescritível a sensação de saber dançar de verdade.

Qual foi a apresentação mais marcante que já participou?
Foram duas apresentações que mais me marcaram, a primeira delas aconteceu em um evento ocorrido em 2024 aqui em São José, chamado ENIDANSA – Encontro Interestadual de Dança de Salão. Um dos maiores eventos de dança de salão do qual vieram dançarinos e professores do Brasil todo participar, e que vou falar dele no decorrer dessa entrevista. A segunda apresentação que me marcou foi no evento Eternas, da cantora Bell Mainardi Froes, ocorrido em 18 de março de 2024, no Epidauro.
Como definiria a Dança aqui em Rio Pardo, o professor Alexandre?
Aqui em Rio Pardo temos como professor um dos maiores profissionais da dança de salão do Brasil, em especial no bolero. Pouquíssima gente sabe disso. O professor Alexandre é conceituado no Brasil todo, inclusive ministrando suas aulas nos maiores evento de dança de salão que ocorrem pelo Brasil, como o WBB – Workshop de Bolero Brasileiro. Não estou dizendo isso só porque ele é meu professor, porque eu tenho minhas divergências com ele; mas não posso negar magnitude da qualidade de profissional que ele é, e de todo reconhecimento e experiência que ele possui. Para se ter uma ideia da importância e da qualidade do professor que temos, os participantes dos eventos que o professor Alexandre vai ministrar suas aulas e cursos exigem a presença de nós, seus alunos, porque sabem da qualidade da nossa dança de salão, e que nossa presença no ambiente de estudo agrega um imenso valor a quem vai participar do evento. E isso é em todos os lugares que vamos dançar, como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e etc. Lembra que cheguei a comentar do ENIDANSA? É um evento capitaneado pelo professor Alexandre, promovido aqui em Rio Pardo, que trouxe os maiores profissionais do samba de gafieira e do bolero para ministrar seus cursos em que todos podiam participar. Foi divulgado em todos os meios de comunicação, principalmente aqui em Rio Pardo. Vieram alunos e pessoas interessadas do Brasil todo. Mas ninguém da população aqui de Rio Pardo veio participar, prestigiar ou conhecer o evento. Detalhe: era gratuito para a população rio-pardense, igual as aulas de dança de salão. São por essas questões que defino a dança de salão aqui de Rio Pardo como muito desvalorizada por todos, que desconhecem a qualidade e a importância que tem.
Para finalizar, o que recomendaria para quem deseja dançar, mas sente vergonha ou tem alguma ‘trava’?
Que venha com vergonha e travada que lá a gente deixa ‘sem vergonha’ e destravada. Brincadeiras à parte, essa questão de ter vergonha de dançar é um paradoxo nos tempos de hoje. Vemos pessoas postando vídeos nas redes sociais de formas bem vergonhosas de dançar, muitas vezes regadas a álcool. Agora, na hora de aprender uma dança de qualidade, com beleza, postura, para ter o prazer de dançar bem, surge a famosa desculpa da “vergonha”. Ou aquela desculpa que ouço muito, “não tenho coordenação”. Muitas pessoas não entendem que essas dificuldades são trabalhadas na aula para que você não tenha mais essa vergonha a aprenda a desenvolver sua coordenação. A dança exige comprometimento, estudo, responsabilidade e empenho, como tudo o que fazemos na vida para alcançarmos o que queremos. A aula de dança não é só para “passar tempo”, é um local de desenvolvimento mental e físico. É difícil, é, mas te garanto, na hora que você sentir fazendo os passos dentro do abraço e da energia da música, a ponto de fechar os olhos para dançar, a sensação é recompensadora e indescritível. Você nunca mais vai querer parar de dançar!






