Fotografia de partos: Luana De Martini conta suas experiências neste trabalho tão complexo e marcante
Entrevista e texto: Natália Tiezzi. Fotos: Luana De Martini

A fotografia é uma arte que registra momentos especiais, mas que, geralmente, é feito em poses preparadas. Mas, e quando esse roteiro muda e o que a câmera capta é exatamente cenas sem posições pré definidas, da vida crua, sem ensaios, e que contam uma das histórias mais emocionantes da humanidade: a chegada de uma nova vida em uma família?
É exatamente essa história que as mídias Minha São José trazem na matéria especial dessa semana, pelos olhos, lentes e sentimentos da fotógrafa Luana De Martini, especialista em fotografia de partos. Graduada em Publicidade e Propaganda, com mais de 15 anos de atuação como fotógrafa e produtora cultural, Luana se apaixonou por fotografar partos a pouco mais de dois anos e, desde então, já fotografou cerca de 30 nascimentos, sendo partos normais e por cesariana.
“Não existe combinação de poses, não existe ensaio, não existe como prever o que vai acontecer. É tudo muito cru, muito real. As emoções simplesmente acontecem diante da câmera. Talvez seja isso que torne esse registro tão especial para mim”, contou a fotógrafa.
Além das emoções contidas no trabalho, Luana destacou um pouco sobre a preparação a esse tipo trabalho artístico, casos que lhe marcaram, num verdadeiro registro escrito do que, inúmeras vezes, seus olhos e lentes captaram. “Acredito esse seja um dos maiores presentes que a minha profissão já me deu: poder entrar, mesmo que por algumas horas, na história de uma família e testemunhar o primeiro instante da vida de alguém. E cada parto também me ensina alguma coisa sobre a própria vida. Sobre sensibilidade, vulnerabilidade, força, medo, amor…”, afirmou.


Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Minha São José: Luana, por que e desde quando fotografa partos?
Luana De Martini: Tudo começou quando fui convidada pela pediatra Dra. Letícia Andreghetto para produzir um vídeo institucional sobre o trabalho dela. Esse primeiro trabalho era justamente voltado à atuação dela dentro da sala de parto. Foi nesse processo que ela começou a me explicar sobre o parto humanizado, como ela conduzia esse trabalho e a importância desse cuidado para a saúde e o bem-estar da mãe e do bebê. E aquilo se conectou muito comigo porque, além de fotógrafa, eu também sou produtora cultural e sempre fui muito ligada às temáticas do universo feminino. Ao longo da minha trajetória, desenvolvi projetos e trabalhos que falam sobre mulheres, suas histórias, suas experiências e seu protagonismo. Então, quando ela começou a me explicar o que realmente significava a humanização dentro de uma sala de parto e tudo o que existia por trás daquele momento, minha cabeça explodiu. Foi como descobrir um universo que conversava diretamente com muitas coisas em que eu já acreditava e trabalhava. Foi a partir daí, há pouco mais de dois anos, que nasceu meu interesse em fotografar partos. Comecei a olhar para o nascimento não apenas como um momento a ser registrado, mas como uma história sobre a mulher, o bebê, a família e toda a transformação que acontece ali.
O que mais te chama a atenção neste trabalho?
O que mais me chama a atenção é ver a vulnerabilidade da mulher ao mesmo tempo em que ela demonstra uma força que é quase inexplicável. E, como fotógrafa, existe uma coisa que me toca muito: o parto é absolutamente verdadeiro. Não existe combinação de poses, não existe ensaio, não existe como prever o que vai acontecer. É tudo muito cru, muito real. As emoções simplesmente acontecem diante da câmera. Talvez seja isso que torne esse registro tão especial para mim. Eu não estou ali para criar uma cena, estou ali para testemunhar e contar uma história que está acontecendo de verdade, no momento em que uma vida chega ao mundo. E junto disso existe uma força feminina muito grandiosa. Seja em um parto normal ou em uma cesárea, existe uma entrega física e emocional muito intensa. Para mim, é algo que quase transcende uma explicação comum. Em alguns momentos, parece até sobre-humano o que uma mulher é capaz de atravessar para dar à luz. Também me chama muito a atenção a importância da família e da rede de apoio. Quando existe um pai ou um acompanhante realmente presente, que apoia, incentiva, acolhe e oferece esse suporte emocional, isso faz muita diferença, e aparece no registro. Está no toque, no olhar, na mão que segura outra mão, nas pequenas coisas que acontecem naquele momento. No fim, fotografar um parto é registrar a primeira experiência de uma nova vida e, ao mesmo tempo, uma família inteira se transformando. E talvez seja justamente por ser tão cru, tão verdadeiro e tão humano que esse trabalho mexa tanto comigo.

Você tem alguma preparação ou protocolo que precisa cumprir para esses registros especiais?
Sim. Eu costumo dividir essa preparação em duas partes. A primeira envolve os protocolos do próprio hospital e a minha conduta dentro da sala de parto. É um ambiente com regras muito específicas, principalmente por envolver áreas e materiais estéreis. Existe uma vestimenta adequada, lugares e equipamentos em que eu não posso tocar e uma maneira muito cuidadosa de me movimentar. Normalmente também estamos falando de um espaço reduzido, com uma equipe médica trabalhando e tomando decisões importantes o tempo inteiro. Então existe uma postura de muito respeito e cuidado não apenas com a mãe, o bebê e a família, mas também com todos os profissionais que estão ali. Eu preciso conseguir fazer o meu trabalho sem interferir no trabalho deles. Quando fiz uma formação mais aprofundada em fotografia de parto, compreendi ainda mais a importância de quem está registrando saber observar e deixar aquele momento acontecer sem interferência. Ali eu não posso pedir para alguém repetir uma ação, mudar de posição ou esperar para que eu consiga uma imagem melhor. Primeiro vem a saúde, primeiro vem a vida e depois vem o registro. A fotografia nunca pode ser mais importante do que a segurança da mãe e do bebê. E existe uma segunda preparação, que é muito pessoal. Na verdade, é algo que faço antes dos meus trabalhos de maneira geral, mas que no parto ganha um significado ainda maior: eu sempre faço uma oração. Eu oro pela mãe e pelo bebê que estou indo encontrar, pela família, pela equipe médica e também por mim, para que eu consiga estar ali com sensibilidade, tranquilidade e fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. É também uma preparação emocional, porque, apesar de estar ali profissionalmente, para mim continua sendo muito intenso acompanhar um nascimento. Então essa oração é a minha forma de me preparar, de entrar naquele ambiente entendendo a responsabilidade que tenho e, principalmente, respeitando a dimensão daquele momento.
Você registra todos os tipos de parto? Quantos já registrou?
Sim, eu registro tanto cesáreas quanto partos normais. Trabalho especificamente com fotografia de parto há pouco mais de dois anos e, nesse período, acredito que já tenha registrado cerca de 30 nascimentos. Apesar de atuar na fotografia há mais de 15 anos, esse é um trabalho que entrou mais recentemente na minha trajetória e acabou se tornando muito especial para mim. Eu não fotografo partos todos os dias porque minha agenda também envolve casamentos, eventos familiares, produções audiovisuais e projetos culturais. Por isso, hoje eu limito a minha agenda a no máximo dois partos por mês. E existe um motivo importante para isso: parto é imprevisível. Diferentemente de um casamento ou de um evento, não existe uma data e um horário exatos em que eu sei que vou trabalhar. Conforme a data prevista se aproxima, começa um período de acompanhamento e sobreaviso. O celular fica ligado e eu preciso estar disponível para ser chamada a qualquer momento, inclusive durante as madrugadas. Toda a minha agenda precisa ser organizada considerando que aquele bebê pode decidir chegar a qualquer hora. Então essas duas vagas mensais são justamente para que eu consiga oferecer um acompanhamento mais próximo e personalizado para cada família e, principalmente, ter disponibilidade real quando aquele bebê decidir chegar.

Teve algum parto que te chamou a atenção em algum aspecto?
Todo parto é único. Não existe nenhum que eu tenha registrado que tenha sido igual a outro. Cada mulher vive aquele momento de uma maneira muito particular e, como não existe roteiro, cada nascimento acaba carregando sua própria história. Mas, se eu tiver que escolher o que mais me emocionou, com certeza foi o parto da minha irmã, no ano passado. Ela mora em São Paulo e eu em São José do Rio Pardo. Ela queria muito ter um parto normal e nós estávamos tentando nos organizar para que eu conseguisse estar lá e registrar o nascimento da minha sobrinha, a Olívia. Só que ela começou a sentir que a bebê poderia nascer antes do período em que tínhamos planejado que eu fosse para São Paulo. Ela me ligou e disse: ‘Estou passando um pouco mal, talvez a Olly vá chegar’. Eu não pensei duas vezes: coloquei minhas coisas no carro e fui. E foi uma verdadeira aventura. Caiu uma tempestade enorme durante o caminho. Eu nunca tinha feito aquela viagem sozinha, dirigindo até São Paulo. Encontrei ruas alagadas, trânsito, o GPS me mandando por rotas alternativas e, ao mesmo tempo, carregava toda aquela ansiedade de saber que minha irmã poderia estar entrando em trabalho de parto e eu não sabia se conseguiria chegar a tempo. Uma viagem que normalmente seria muito mais rápida acabou levando cerca de sete horas. Mas eu consegui chegar. E, aproximadamente duas horas depois de eu estar na casa dela, a bolsa estourou e fomos para o hospital. Foi um dos registros mais emocionantes da minha vida porque, naquele momento, não existia somente a fotógrafa. Estavam ali também a irmã e a tia. Eu precisava registrar tudo profissionalmente enquanto vivia, pessoalmente, uma das experiências mais intensas da nossa família. O resultado foi um dos vídeos mais fortes e emocionantes que já produzi. Para mim, deixou de ser apenas o registro de um parto e se transformou em uma obra muito pessoal, quase uma obra de arte sobre aquele nascimento e sobre tudo o que nós vivemos para chegar até ele.
Quanto tempo de trabalho você já dispensou em um parto que foi mais demorado?
Eu tive dois partos normais que exigiram um acompanhamento muito longo. Porque, no parto normal, não é só o tempo que eu permaneço dentro do hospital que conta. Existe todo um período anterior de sobreaviso e de acompanhamento da evolução daquela mãe. Um que me marcou muito foi o da Suzana, no nascimento do José Pedro. Ela já estava internada e eu passei praticamente uma madrugada inteira em casa, com o celular ligado, acompanhando tudo e esperando o momento certo de ir para o hospital. A gente trocava mensagens, acompanhava a evolução e eu sabia que poderia precisar sair de casa a qualquer momento. Foram quase dois dias vivendo essa expectativa. E chegou um momento em que parecia que o parto não evoluiria como esperado e a possibilidade de uma cesárea chegou a ser considerada. Eu me lembro daquela sensação de que a história estava prestes a tomar outro caminho. Mas, nos últimos momentos, José Pedro nasceu de parto normal. E foi lindo. Depois de tantas horas de espera, de expectativa e de tantas possibilidades durante aquele processo, de repente ele simplesmente chegou. Esse parto me ensinou muito sobre esse tipo de fotografia também. Às vezes são poucos minutos decisivos para fotografar, mas, para estar presente nesses poucos minutos, eu posso passar uma madrugada ou até quase dois dias acompanhando, esperando e estando disponível. Porque eu nunca sei exatamente quando aquela história vai acontecer, eu só preciso estar pronta quando ela acontecer.

Qual é a sensação de registrar um momento tão especial?
É algo que transcende tudo o que eu imaginei que poderia viver dentro da minha profissão. A fotografia me deu o privilégio de estar presente em momentos extremamente fortes e humanos da vida das pessoas. Eu já acompanhei casamentos, batizados, histórias de famílias… mas, no parto, eu estou diante da chegada de uma vida. E isso é muito difícil de mensurar. Naquele momento, muita coisa acontece comigo também. Eu me emociono, me preocupo, fico ansiosa, às vezes me desespero junto, depois me acalmo… Eu estou ali como profissional, preciso estar atenta à luz, ao enquadramento, ao instante que não vai se repetir. Mas, antes de ser fotógrafa, eu também sou um ser humano presenciando algo magnífico. E não existe câmera que crie uma barreira para isso. Talvez esse seja um dos maiores presentes que a minha profissão já me deu: poder entrar, mesmo que por algumas horas, na história de uma família e testemunhar o primeiro instante da vida de alguém. E cada parto também me ensina alguma coisa sobre a própria vida. Sobre sensibilidade, vulnerabilidade, força, medo, amor… sobre como a gente pode ser frágil e extremamente forte ao mesmo tempo. Eu cheguei para registrar muitas dessas histórias, mas percebi que elas também deixam alguma coisa em mim. E acho que é por isso que fotografar um nascimento nunca se tornou apenas mais um trabalho.
Como são seus contratos de trabalho?
Os contratos para o registro do parto são bem específicos, porque estamos falando de um momento muito íntimo e também de um ambiente que possui regras próprias. Então o contrato trata desde questões de privacidade e autorização de uso de imagem até a forma como funciona o acompanhamento e o contato comigo quando o trabalho de parto começa. Esse contato precisa ser muito rápido. Em algumas situações, por exemplo, não basta mandar uma mensagem e esperar que eu veja; a orientação é fazer uma ligação. Tudo isso é combinado antes para que, quando chegar o momento, a família saiba exatamente como agir. Também faço questão de explicar qual é o meu papel dentro da sala de parto. Eu estou ali para registrar o que acontece, não para interferir. Não manuseio o bebê, não posiciono a mãe, não conduzo nenhuma situação. Não é um ensaio fotográfico. Existe uma equipe de saúde trabalhando e existem protocolos hospitalares que precisam ser respeitados, inclusive a própria autorização do hospital para a entrada do profissional. Por isso, quanto antes a gestante entrar em contato, melhor. A gente consegue conversar com tranquilidade, verificar as regras do hospital, organizar toda essa parte e até preparar emocionalmente a mãe para como será esse registro. Mas também já vivi o outro extremo: ser contratada no próprio dia do parto. Já recebi ligação da família, do hospital e até da médica dizendo que havia uma mãe querendo o registro naquele momento. Se eu tiver disponibilidade e o hospital permitir, pode acontecer. Hoje eu trabalho com modalidades diferentes para cesárea e parto normal. O parto normal não conseguimos determinar com antecedência quando começa, quanto tempo vai durar ou em que horário serei chamada. Já na cesárea, normalmente existe uma programação maior. As duas modalidades podem ser parceladas, e as condições de pagamento são combinadas no momento da contratação. Mas, principalmente para quem deseja garantir uma das vagas da minha agenda, o ideal é não deixar para o final da gestação. Quanto mais cedo a família me procura, mais tranquilamente conseguimos preparar tudo para que, quando o bebê decidir chegar, a única preocupação seja viver aquele momento.
Para fnalizar, quais são seus contatos e onde são publicados seus trabalhos?
Meu principal canal é o Instagram, @luanademartinifotografia. É lá que eu compartilho meus trabalhos, inclusive alguns registros de nascimento que as famílias autorizam a publicação. No próprio Instagram também está disponível o meu contato pelo WhatsApp. Quem tiver interesse pode me chamar por lá para a gente conversar com calma. Eu envio meu portfólio, explico como funciona a cobertura e tiro todas as dúvidas sobre o registro do parto. Gosto muito desse primeiro contato, porque cada família tem uma história, uma expectativa e também necessidades diferentes para esse momento.







