Crônica de domingo: Uma homenagem ao saudoso “Dito do Acalanto”

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É tarde de quinta-feira. A chuva não pára. Até o Sol aparece. O vento corre pela nave da igreja, com portas escancaradas. Brinca de apagar com a vela, ao lado do esquife. A chama desce, esconde-se, some e volta a brilhar intensamente, longe do vento maroto.

Padre Agostinho lê salmos. Salmos confortadores de vida eterna.

Pai nosso… O amor de Cristo nos uniu…

O vento e a chama… A vida e a morte… Apagou! Morreu! Morreu moço: 44 anos!

 – Muito prazer. Eu me chamo Benedito de Almeida Tavares. Às suas ordens. Eu sou o garçom de Campinas, para experiência. Não pude vir ontem para a inauguração…

Franzino e falante, Benedito veste o ‘smoking’, perfuma-se e se põe a trabalhar: 15 de novembro de 1964.

O restaurante Acalanto vive dias tumultuados de inauguração. O garçom experiente e vivo, equilibra travessas e bandejas entre a multidão que lota todos os espaços.

 – Perdão! Com licença, amigo! Pois não, madame! Um minuto, por favor! O senhor está satisfeito? Aceita um café?…

Eficiência, interesse, sinceridade, simplicidade, amizade, eram elogiosas qualidades do serelepe garçom.

Quantos amigos estão ali acompanhando-o: velhos, moços, pobres, ricos, doutores, braçais…

O sino do São Roque bimbalha alegre para o alegre Dito, que alegrou a tantos…

 – Sua mesa está reservada, doutor. Eu vou lhe fazer um discurso…

E ele discursava, vazio e solene, provocando alarido, comentários, muitas palmas.

 – Eu fui candidato a vereador em Campinas, sabe? Quase entrei.

Os sinos alegres da Vila Pereira ficam para trás. Ruas de São José, que ele amou, são palmilhadas na vagarosa tristeza do cortejo. Ele conheceu todas as pessoas que o acompanham, e que estão nas portas e janelas, pausando o trabalho.

 – Eu resolvi. Vou morar em São José. Vou buscar minha família.

Dito ficou. Não teve inimigos. Trabalhou com amor. Amor pelo Acalanto. Amor pela cidade.

Muitos donos passaram pelo restaurante. Dito ficou. E ficou sendo o Dito do Acalanto, que fez companhia a solitários; que animou estudantes-visitantes; que correu para que todos fossem bem atendidos; que acalmou os ânimos exaltados; que sorriu e chorou dentro daquele mundo que cheirava a comida…

Lá vai o Dito para o jardim do sono eterno! Muita gente o leva, andando o longo caminhar. A fila de carro perde-se de vista. Flores desabrocham nas mãos dos amigos; amigos que a simplicidade e sinceridade conquistaram.

 – Pode deixar sua filha aqui. Eu tomo conta.

 – Sugiro um filé à Chateaubriand.

 – Parabéns! Eu faço questão de servir este jantar comemorativo. Eu posso falar algumas palavras?

 – Não se preocupe com o casamento da sua filha… Tudo sairá bem… Eu aconselho um filé de peixe ao molho tártaro como entrada… É fino… Vinho rosé serve todos os pratos…

É o fim do caminho de uma vida, vivida a servir. Doze anos se passaram desde a inauguração do Acalanto.

O sol do poente ilumina tristes semblantes.

A fala da Câmara Municipal e do povo faz-se ouvir, na voz amiga do Sérgio Ribeiro: fala de verdades vividas e sentidas…

Tudo termina e recomeça, com o homem voltando ao nada…

A tarde tem sol e pranto preso na garganta. Preciso escrever…

Vi o Dito chegar:

 – Muito prazer. Eu me chamo Benedito de Almeida Tavares, às suas ordens…

Vejo o Dito se ir:

 – Adeus, Dito do Acalanto, amigo de velhas lutas…

16/09/1976

Crônica retirada do livro “Enquanto a Noite não vem”, do professor Rodolpho José Del Guerra, de 2005.

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