Viúva aos 26 anos, Talita encontrou na dor um dom que mudou sua vida

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Em seu pequeno ateliê, em casa, Talita fez do artesanato muito além de terapia, mas uma fonte de renda que auxilia na criação de seus dois filhos

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Mudanças e recomeços. Eles acontecem a todo momento em nossas vidas, mas muitas vezes não é fácil assimila-los quando ocorrem de repente. Mais difícil ainda é encontrar em situações dolorosas um caminho que leve a novas perspectivas. E ainda, quem sabe, descobrir um dom, uma luz diante de uma escuridão não escolhida, mas necessária ser vivida.

Assim poderia ser descrita a história da jovem Talita Cremasco Pantano Pereira que, aos 26 anos, ficou viúva e ‘da noite para o dia’ deixou de ser menina para se tornar uma verdadeira mulher, cuidar dos dois filhos pequenos, fazendo o papel de mãe e de pai, por vezes tão comuns e difíceis para inúmeras mulheres que também vivem essa realidade.

Você deve estar se perguntando: mas como ela conseguiu forças para seguir em frente? Com Talita foi através do artesanato. Nele, ela descobriu muito mais que uma terapia, mas uma profissão, uma fonte de renda para o sustento da família.

O talento que nem ela mesma sabia que possuía para combinar criatividade e cores se tornam peças únicas que agradam crianças e também adultos.

De dia ou à noite, não importa a hora: dedicada, Talita se apaixonou pelas cores e texturas e hoje faz sucesso com lindas peças artesanais e personalizadas

Em entrevista ao www.minhasaojose.com.br, ela falou como esse dom descoberto em um momento doloroso está transformando sua vida em todos os sentidos. Talita contou detalhes da nova profissão, que sempre menciona com muito carinho e respeito, situações marcantes, inclusive o recomeço de sua vida pessoal ao lado do namorado, Márcio Rioli, o qual a artesã também disse que está sendo fundamental para o seu crescimento profissional.

Durante o bate papo, o filho de Talita, o pequeno Lucca, de seis anos, se emocionou ao ouvir a história da mamãe e elogiou. “Ela é muito dedicada no trabalho”, disse, seguido de um abraço forte na artesã, momento em que ambos ficaram com os olhos marejados.

“Lucca é minha força. Ele foi o primeiro a notar que eu precisava reagir à situação da perda do meu ex-marido, Mateus, e sempre me encorajou. Hoje me tornei uma nova mulher por ele e pela Luna, minha caçula, que está com 1 ano e meio”, ressaltou Talita.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra e inspire-se. E, como a vida é assim, nem sempre o fim é um ponto final. Ele pode (e deve) ser mais um reinício…

Talita, como surgiu esse dom ao artesanato?

Talita Cremasco: Para dizer a verdade nem eu mesma sabia que o possuía. Eu vendia roupa e depois que me casei com Mateus me assumi como dona de casa e também o auxiliava na empresa de doces que tinha. Porém, após a morte dele, mergulhei em uma grande depressão. O Lucca tinha 4 anos e eu estava grávida de três meses da Luna. Meu dia se resumia a chorar, cuidar dele e resolver situações burocráticas relativas à essa grande perda em nossas vidas. Naquele momento nada mais fazia sentido, a não ser meus filhos, mas eu não encontrava um caminho para me reecontrar comigo mesma. Certo dia, o Lucca disse assim: ‘mamãe, eu não aguento mais ver você chorar. Quero você com o cabelo bonito, olhinho preto, como você era’. Acho que isso foi o incentivo que eu precisava para, literalmente, me levantar. Ele e eu passamos por terapia, o que nos auxiliou e auxilia até hoje. E foi através de uma conversa com duas grandes amigas, a Graziela e a Marina, que a ideia do artesanato começou a criar forma. Eu disse a elas que queria e precisava fazer alguma coisa para ocupar minha mente e, obviamente, sustentar minha família. A primeira ideia que tive foi comida, pois gosto muito de cozinhar, mas a Grazi mencionou que eu poderia tentar fazer laços. Naquele dia, após o encontro com ambas, cheguei em casa meia noite e passei a madrugada inteira pesquisando na Internet, assistindo a tutoriais, fazendo anotações. Eu gostei muito da ideia, embora nunca tivesse feito nenhum trabalho manual desse tipo na vida! E essas duas amigas me ajudaram e me ajudam até hoje. Elas nunca desistiram de mim!

E quando você iniciou a confecção e as vendas?

Depois de pesquisar e entender um pouco esse universo dos laços, que é bem complexo, falei com meus pais, eles me apoiaram e eu fiz a primeira compra de acessórios para começar a produzir. Lembro que gastei R$ 145,00 e me perguntava quando eu iria recuperar esse dinheiro com as vendas! Confesso que demorei alguns meses até aprender direitinho as técnicas básicas, mas persisti, nunca desisti. A cada dobra, corte, aplicação, costura me sentia mais segura. E em agosto de 2019 iniciei as vendas. A Luna tinha quatro meses. Eu mesma fiz a logomarca e comecei a divulgar nas redes sociais. Para minha surpresa, em meia hora vendi 9 laços. Depois de tanta dor, eis que enxerguei um dom que Deus havia me dado e a partir daquele momento passei a me dedicar à minha real profissão: artesã!

Por que o nome Luz da Luna?

Luz porque os laços realmente foram uma luz na minha vida. Eles iluminaram a escuridão que eu vivia, infelizmente por causa da fatalidade que aconteceu com o Mateus. E Luna porque ela também chegou para iluminar nossas vidas com sua alegria e doçura.

Onde busca inspiração para confeccionar tantas coisas lindas?

Até hoje assisto muitos tutoriais, busco informações nos grupos de redes sociais que participo e também presto atenção nas características das minhas clientes, principalmente as crianças. As mamães sempre enviam fotos, contam um pouquinho da criança e partir daí as ideias vão surgindo. Além disso sou muito perfeccionista. Se vejo que uma peça não está do jeito que eu gostaria, desmancho e começo novamente.

Como você alia trabalho e maternidade, já que trabalha em casa?

É prazeroso trabalhar junto aos meus filhos. Aqui em meu pequeno ateliê consigo dar asas à criatividade e, ao mesmo tempo, ficar com eles, vê-los crescer. Porém, não é fácil, ainda mais agora diante da pandemia, com as aulas presenciais foram suspensas. Digo que se não fosse pela ajuda da minha mãe com as crianças ficaria muito mais difícil. Por outro lado, minhas clientes são bem compreensivas comigo, pois sabem do meu cotidiano corrido.

Atualmente, o que confecciona e qual seu carro chefe em vendas?

Além dos laços, faço também tiaras, pulseiras, colares, porta laços, sapatinhos para batizado, tudo personalizado. Acredito que meu carro- chefe sejam os laços, principalmente com aplicação em biscuit. Os personagens em biscuit são feitos com muito carinho pela amiga e artesã Sabrina. E são exatamente os laços grandes minhas paixões em confeccionar.

Além da questão financeira, o que o artesanato contribuiu para essa mudança em sua vida?

Meu trabalho foi um dom que Deus me deu para eu me tornar uma mulher forte. Hoje digo que é difícil alguma coisa me abalar. O artesanato me ajudou até a recuperar minha autoestima, perder 10 quilos, ser mais desinibida, pois preciso usar minha imagem para divulgar meus produtos e eu sempre fui muito tímida. Me alegro trabalhando com cores, texturas, brilhos. O trabalho me enche de alegria e sempre procuro fazer tudo com muito amor e dedicação.

Você gostaria que sua filha também seguisse seus passos na profissão?

Sim, muito! Quando ela ficar um pouco maior quero ensina-la, mas ela poderá seguir a profissão que quiser que sempre irei apoia-la.

Vamos falar um pouco de vida pessoal aliada à profissão. O seu namorado a apoia neste novo trabalho?

Na verdade eu conheci o Márcio por meio dos laços. Ele quis ver alguns para comprar à filha, Maísa. Eu levei em seu escritório e depois de um tempo começamos a namorar. O apoio dele ao meu trabalho aconteceu desde o momento em que nos conhecemos, pois sempre admirou o que eu fazia. O artesanato me ajudou até neste sentido, de me abrir a um novo relacionamento, já que, após a morte do Mateus fiquei 1 ano e sete meses sem me relacionar com nenhuma outra pessoa. Aliás, nem achei que iria conseguir me relacionar novamente até conhecer o Márcio. Apoiamos um ao outro e temos uma relação muito além de apenas nós dois, mas família mesmo, com respeito, tanto com os filhos dele, quanto com os meus.

E você acredita que o Mateus está orgulhoso desta nova Talita?

Dia desses sonhei com ele me dizendo que ‘minha menina havia se tornado uma mulher’. O Mateus sempre terá meu amor, um sentimento fraterno, o amor do Lucca e também da Luna quando ela passar a entender tudo que ele representou e representa em nossa família. Mateus é o pai dos meus filhos e tenho orgulho disso. Acredito que ele também está orgulhoso de mim pois, aos poucos, eu estou superando a dor. É um dia de cada vez…

Para finalizar, quais seus planos para o futuro da Luz da Luna?

Quero expandir a linha de produção, com novidades e, se Deus quiser, abrir a loja Luz da Luna!

Talita utiliza bastante as redes sociais para divulgar seus produtos, além de dividir com suas clientes um pouco da rotina de artesã, dona de casa e mãe. Ao fundo da foto, os filhos, Lucca e Luna
A artesã gosta de ver e mostrar sua evolução: O laço preto foi o primeiro que fez e acima um laço confeccionado após muito aprendizado
Talita exibe com orgulho o primeiro caderno de anotações com aprendizados, dicas, as despesas e a receita de sua pequena empresa

Para quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho de Talita e da Luz da Luna Laços, acompanhe pelo Facebook na página: luzdalunalacos ou pelo whatSapp: (19) 99299-8989.

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One thought on “Viúva aos 26 anos, Talita encontrou na dor um dom que mudou sua vida

  • 24/11/2020 em 12:50
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    Rafaela, muito obrigada pelo apoio e por acompanhar nosso trabalho! Um grande abraço! Natália Tiezzi – jornalista responsável

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