Maira Pedretti: Ela transformou a dor em doçura e conquistou os paladares rio-pardenses

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A confeiteira contou que começou a fazer doces após a morte do marido, há 7 anos, e que isso lhe ajudou a lidar com a perda

Entrevista e texto: Natália Tiezzi

Doces e bolos. Eles fazem parte de dias e comemorações especiais, adoçando os paladares e proporcionando alegrias às pessoas. Mas, a doçura também pode transformar a dor em profissão, assim como aconteceu com a confeiteira Maira Cristina Pedretti de Oliveira.

Há 7 anos, ela teve que aprender a lidar com a perda de uma das pessoas mais especiais de sua vida, o marido. E foi fazendo doces que Maira passou a ‘ocupar a cabeça’, principalmente nas longas noites e madrugadas.

Os doces se tornaram muito mais que uma terapia, mas uma fonte de renda e uma forma de mostrar seus dons na confeitaria, adoçando momentos únicos de muitos clientes e amigos.

Além de doces finos, Maira também faz bolos e, embora seja filha de boleira e neta de cozinheira, disse que aprendeu a arte da confeitaria sozinha, já que sempre gostou de cozinhar. As inspirações para tantas criações de dar água na boca vêm das três filhas, além do marido e do pai, também falecido.

Ao longo da entrevista, Maira contou um pouco de sua rotina, muitas vezes exaustiva, já que preparar doces e bolos não é tarefa fácil: leva tempo, paciência, muito amor e dedicação.

Ela destacou, ainda, momentos marcantes, receitas que não deram certo (porque, sim, elas também ocorrem) e a satisfação em proporcionar alegria e prazer através de afeto e açúcar.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Maira, quando e como você descobriu esse dom e paixão pela confeitaria?

Maira Cristina Pedretti de Oliveira: Comecei a fazer doces em junho de 2014, mesmo ano que perdi meu marido. E foi por esse motivo que iniciei na confeitaria, inicialmente para ajudar na renda familiar. Eu sentia uma solidão noturna imensa, minhas filhas ainda eram muito pequenas. Durante o dia ficava tudo bem, mas as as noites eram doloridas… E fazer os doces ocupava minha cabeça e financeiramente me ajudava a não ter medo do que estava por vir. Após o trabalho, meu corpo ‘entrava em transe’ de tão cansada e eu ‘apagava’.

Para todos os gostos: Os doces fizeram Maira descobrir o dom da confeitaria, mesmo em um momento triste de sua vida

Com quem aprendeu a fazer doces? Você teve alguma inspiração?

Eu sempre gostei de cozinhar, sempre fiz doces para casa, família. Minha mãe é boleira e minha avó paterna, que me criou, foi uma grande cozinheira. Aprendi sozinha no início, sem curso, sem referências. Fui mesmo pela intuição e como consumidora do que eu gostava de comer! Vendia muito no começo e acho que os amigos compravam para me ajudar e foram gostando. Já os bolos surgiram um pouco depois dos doces.

Qual foi o primeiro doce que fez? E para quem foi a encomenda?

Os primeiros doces foram bombons de leite ninho, com uma variedade de recheios. A primeira venda foi uma bolota de leite ninho para uma amiga/vizinha (risos)!

E qual é o doce que lhe dá mais prazer em fazer? E o bolo mais pedido?

O doce que tenho maior segurança são os bombons de leite ninho recheados, uma infinidade de sabor e tenho uma habilidade incrível com a massa e decoração. O bolo, com toda certeza, é o que tem maior saída é o de massa folhada com doce de leite.

Um dos bolos mais pedidos é o de massa folhada com doce de leite, uma verdadeira iguaria, que se tornou marca registrada de Maira

Você sente dificuldade em fazer algum doce? Alguma receita já deu errado e você teve que refazer?

Vejo dificuldade, talvez por não gostar de fazer e comer, em trabalhar com chantily na decoração. Já tive algumas receitas que deram muito errado, que foram desde massa pão de ló até em fazer o bolo parar em pé para decorar (na cozinha tem que ter muito ‘paranauê’ – risos) 

 teve algum pedido inusitado? Ou alguma história marcante que seus doces fizeram parte?

Pedido inusitado, para mim, é pedido de última hora (Senhor, morro de medo de pegar, pois trabalho em outro emprego também). Histórias existem muitas, as melhores foram na companhia de uma grande amiga/irmã, que no início era uma ajudante e acabou se tornando sócia. Nessa época me arriscava mais em pegar grande número de doces, pois com as crianças pequenas e trabalhando fora era inviável aceitar grandes encomendas. Certa vez passamos uma noite toda (eu, minha sócia e a mãe dela – que muito nos ajudou) em claro fazendo uma grande quantia de doces, cupcakes, pirulitos pães de mel, muita coisa mesmo. Ficamos ‘bêbadas’ de sono e hora ficávamos quieta. Tinha momentos que surgiam histórias que não fazia rir muito e assim passamos aquela madrugada. Terminamos umas 6 da manhã! No dia seguinte, a cliente fez um agradecimento pós festa na sua página do Facebook e nem citou nosso nome, marcou “uma das melhores boleira da cidade” – tenso, mas faz parte!

O que a confeitaria significa em sua vida?

É um dom, uma bênção. Embora em muitos momentos já pensei em parar, pelo cansaço, pelas vezes que me senti falha em não estar presente em muitas coisas das meninas, mas elas sempre ficaram comigo em casa durante a jornada! Mas todas as vezes que finalizo um trabalho, o abençoo, bem como ao dinheiro ganhado com muito esforço, minha cozinha, enfim, sempre sou muito grata.

Quantas vezes com o corpo dolorido, pernas e pés inchados, entrego a última encomenda e venho pelo corredor de casa, olho para o céu, olho, e em pensamento agradeço a Deus por estar comigo aqui.

Seu esposo e pai, já falecidos, lhe dão forças para prosseguir na profissão? 

Eu já pedi várias vezes para ambos me ajudarem, pois o cansaço era tanto em alguns momentos que eu começava chorar, inclusive as 2, 3 horas da manhã… E continuo pedindo para me abençoarem e me darem forças para continuar!

Sabores clássicos como Chocolate e Morango também adoçam a vida dos clientes de Maira

Impossível não fazer essa pergunta: Na sua casa, com três filhas, tem doce todo dia?

Nem todo dia (Casa de Ferreiro né – risos). Mas, aos finais de semana, na casa da vó, quem sempre leva a sobremesa sou eu!

Você gostaria que alguma de suas filhas também se dedicasse à confeitaria?

Não é um desejo. Meu desejo é elas seguirem com o que as fizerem feliz, mas se alguma delas se dedicar, ficarei emocionada, pois serei sua referência! A Heloisa, minha número 2, me ajuda a abrir forminhas, lava louça, já até me ajudou a embalar doces em um dia daqueles corridos!

Para finalizar, qual é a sensação de ‘adoçar’ a vida das pessoas, principalmente em momentos especiais, como aniversários, festas, etc?

É um prazer imenso quando entrego uma entrega confiante do que aqueles clientes irão comer, com qualidade, respeito e carinho com o alimento e com o cliente. Hoje entendo que cada cliente traz mais um! E assim já estou há 7 anos. Tenho total respeito pela profissão e por cada confeiteira da nossa cidade! Meu maior curso foi na minha própria bancada, errando refazendo, experimentando… Me acho uma confeiteira iniciante ainda. Mas sigo sendo feliz e realizada a cada dia, a cada encomenda entregue!

Maira e as três filhas: “Não vou influencia-las, mas se alguma delas seguir a confeitaria ficaria muito feliz, pois seria a referência”, afirmou
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