Homenagem: Professor Valdir Ferreira conta suas experiências em mais de 50 anos de magistério

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Início da carreira foi em São Paulo, lecionando também em Mococa e, por fim, em São José, onde foi um dos fundadores do Colégio Lumen

Início da carreira foi em São Paulo, lecionando também em Mococa e, por fim, em São José, onde foi um dos fundadores do Colégio Lumen

Ele marcou gerações com seu jeito sério e atencioso nas inúmeras instituições de ensino por onde passou. Didático, sempre proporcionou aulas marcantes, extraindo o melhor de seus milhares de alunos. E, mesmo após décadas de experiência, se dispôs a aprender novas formas de ensinar o Português nosso de cada dia, principalmente após a explosão da Internet e de uma linguagem um tanto quanto peculiar frente aos padrões da grafia e gramática já existentes.

Nossa matéria especial de hoje é uma singela homenagem a um dos professores mais queridos e respeitados da cidade, Valdir Ferreira. Durante a entrevista, ele contou momentos que o marcaram durante os mais de 50 anos de magistério, relembrou escolas onde lecionou, as maiores dificuldades que enfrentou com os alunos em sala de aula, o orgulho em ter sido um dos fundadores do Colégio Lumen, além da satisfação como professor, cuja carreira foi influenciada pelo “saudoso mestre Hersílio Ângelo”, como ele próprio destacou.

“Seu Valdir”, como era chamado pelos estudantes, hoje está aposentado. Ele também opinou sobre as aulas online, as quais tiveram que ser adotadas por muitas instituições de ensino frente ao isolamento social provocado pela pandemia, e, por fim, as lições que aprendeu como mestre, entre elas reconhecer suas limitações.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Natália Tiezzi: Professor Valdir, qual a sua formação, onde estudou e em que ano concluiu a faculdade?

Valdir Ferreira: Sou professor licenciado em Letras Clássicas (Português e Latim) pela Universidade de São Paulo. Iniciei o curso em 1963 e concluí-o em 1966.

O professor Valdir no dia de sua despedida do Colégio Lumen, o qual foi um de seus fundadores

Por que optou pelo magistério e, especificamente, pela Língua Portuguesa?

Minha opção pelo magistério teve forte influência do saudoso Mestre Hersílio Ângelo, responsável pela formação de um grupo de professores de Português de nossa cidade. Como estudante do Curso Colegial (Clássico) no IEE “Euclides da Cunha”, tinha preferência por três disciplinas (Português, Latim e Matemática), às quais me dedicava bastante. Durante os três anos em que cursei o Colegial, dei aulas particulares dessas disciplinas. Durante esse período, tive o apoio irrestrito do Professor Hersílio Ângelo, cuja orientação me levou à Universidade de São Paulo.

Quais foram as escolas onde o professor lecionou?

Minha vida profissional começou numa Escola de Comércio no centro de São Paulo à noite, quando ainda era estudante de Letras. Logo depois, também à noite, trabalhei durante um ano e meio no IEE “Dr. Carlos Augusto de Freitas Villalva Júnior”, no Bairro Jabaquara. Aprovado em Concurso de Ingresso no Magistério Estadual, efetivei-me no IEE “Oscar Villares, de Mococa (1968 – 1976). Em 1977, removi-me para São José, onde lecionei na EE “Tarquínio Cobra Olyntho” (até 1994) e na EE “Dr. Cândido Rodrigues” (até 1997, quando me aposentei). Também fui professor de Literatura Brasileira e Prática de Ensino do Português na FFCL de São José do Rio Pardo, hoje FEUC, de 1969 a 1987. Lecionei também no Colégio Grafos e, depois, no Colégio Cidade de São José do Rio Pardo – Anglo Sistema de Ensino. Fui um dos fundadores do Colégio Lumen – Anglo Sistema de Ensino, onde encerrei minha atividade como professor em 2013, com cinquenta anos de sala de aula.

Em todos esses anos em sala de aula, qual foi a maior dificuldade dos alunos em aprender a Língua Portuguesa?

A maior dificuldade estava na leitura. Muitos alunos não conseguiam ler e entender corretamente um texto. No estudo da Gramática, a falta de pré-requisitos era uma constante.

O professor se recorda de algum momento ou aluno que tenham lhe marcado ou alguma história curiosa, de superação e aprendizado?

Lembro-me de três alunos de escolas diferentes. O primeiro foi meu aluno em Mococa na oitava série do Ensino Fundamental (na época, quarta série ginasial) e na primeira série do Colegial (hoje, Ensino Médio). Criava textos excelentes que pecavam pela ortografia. Hoje é advogado,  poeta e um estudioso da obra de Guimarães Rosa.

O segundo conheci no Tarquínio, onde ele cursou o Ensino Fundamental II (da 5ª à 8ª série). Morava num sítio, onde o pai trabalhava. Sempre com o material em ordem, tinha uma postura de alguém que sabia o que queria. Foi vencedor da Maratona Euclidiana. Ganhou uma bolsa de estudos do Colégio Grafos, onde cursou as três séries do antigo colegial. Foi aprovado na FUVEST (Engenharia da POLI). Como sua família não tinha condições de sustentá-lo em São Paulo, vários ex-professores do Tarquínio se quotizavam mensalmente para enviar-lhe o dinheiro para sua manutenção. Causou-me tristeza quando, após um semestre de estudos, ele procurou-me para dizer que havia trancado a matrícula, porque sentia que Engenharia não era sua vocação. Disse-me que iria tentar vestibular novamente, mas para Odontologia. Resultado: foi aprovado em várias universidades públicas. Já formado, procurou-me novamente para dizer que estava trabalhando e que se sentia realizado.

O terceiro aluno foi um bolsista no Colégio Lumen. Era de outra cidade, de família humilde. Em termos de Língua e Literatura, ele tinha dois registros: um para falar e outro para escrever. Falava errado, mas seus textos eram perfeitos em coerência, coesão e correção. Sua letra tinha um traçado perfeito e a organização de suas anotações era admirável.

O que mudou na forma de ensinar a Língua Portuguesa hoje se comparada 20 anos atrás?

Por muito tempo, ensinou-se a Gramática pela Gramática. Hoje, a Gramática é ensinada como um meio que leva à compreensão de um texto. Exemplificando: Ao invés de pedir que se classifique uma oração em subordinada adverbial causal, explora-se a ideia de consequência / causa, quando se quer enfatizar a causa. Também se pode mostrar ao aluno que a mesma frase pode ser reescrita de outra forma quando se quer apenas enfatizar a consequência. O que importa no estudo dessas orações é entender as circunstâncias que elas expressam. A sua classificação é uma decorrência.

Qual foi a maior lição que aprendeu nestas mais de 5 décadas de magistério?

A maior lição é que o professor deve ser humilde, reconhecer suas limitações e estar preparado para aprender sempre.

A Internet vem mudando um pouco as formas de comunicação e até de linguagem. As abreviações e palavras grafadas erroneamente tomaram conta das redes sociais. O que fazer para que as crianças e adolescentes não se percam da forma correta de aprendizado da língua, já que a concorrência com o ‘Internetês’ é grande?

O Português Digital é uma realidade da qual não há como fugir. A necessidade de comunicação rápida e eficaz criou essa realidade. Temos que conviver com esse tipo de linguagem em que palavras são abreviadas sem vogais e com permanência de consoantes (vrdd = verdade; bjs = beijos; td = tudo), além de pontuação mínima e de uso de símbolos para se traduzir uma ideia (KKKK para indicar risada). O que as crianças e adolescentes precisam entender é que a linguagem da internet não pode ser utilizada a todo o tempo. O conhecimento da norma culta que a Escola ensina é fundamental. Há inúmeras situações em que ela é exigida. Pais e professores têm o dever de mostrar que o mau uso desse instrumento pode prejudicar o conceito de uma pessoa.  

Com a Pandemia, as aulas passaram a ser online. O professor acredita que é possível alfabetizar uma criança por meio do computador?

Posso resumir a resposta com uma única frase: Nada substitui o professor.

Como os pais podem ajudar seus filhos na alfabetização ou é melhor não interferirem?

É melhor não interferir. Acompanhar a realização de tarefas e esclarecer dúvidas, a meu ver, são formas de ajudar.

Gostaria que contasse um pouco de sua paixão por registrar a cidade em fotos. Quando e como surgiu esse, digamos, hobby e qual foi o local que mais gostou de fotografar?

Surgiu quando o e-mail passou a ser a “coqueluche” dos internautas. PPSs inundaram as caixas postais. Procurei descobrir como se elaborava um PPS. Aos poucos, fui dominando a técnica que passei a utilizar na elaboração de estudos de livros da FUVEST para utilizar em minhas aulas no Colégio Lumen. Paralelamente, passei a criar PPS com fotos de nossa cidade. Esse trabalho começou tímido e, à medida que descobria novas fotos, ele foi aumentando. Para obter mais fotos, passei a fotografar vários pontos de nossa cidade. A tarefa seguinte foi transformar o PPS em filme ou vídeo para se ver na televisão. Consegui um programa que faz essa conversão. O principal vídeo que começou do nada hoje conta com 356 fotos, todas legendadas e com os devidos créditos. Sua duração: 1hora e 15 minutos. É um passeio virtual por nossa cidade. Quanto ao local que mais gostei de fotografar, é muito difícil escolher entre a Igreja Matriz, o Cristo Redentor, a Ponte Euclides da Cunha e o Rio Pardo. Cada um tem o seu encanto.

Para finalizar, o que é ser professor para o senhor?

Considero que ser professor é, antes de tudo, uma missão difícil para a qual precisamos estar preparados. Ser professor é abrir caminhos, é transferir a outros o que sabemos, é formar, além de informar, é ser modelo de humildade, de honestidade e de retidão.

UM HOMEM ÍNTEGRO, JUSTO

A reportagem entrou em contato com a esposa e os filhos do professor Valdir para que deixassem um depoimento sobre ele, os quais retratamos abaixo.

“Ele sempre foi um pai e um professor rígido, exigente, disciplinado. Uma pessoa boníssima, justa, que sempre foi e é exemplo. Graças a ele e minha mãe sou o que sou hoje, principalmente no tocante à educação que ambos me proporcionaram e à disciplina do professor Valdir” – Clarissa Navarro, filha.

“Valdir me cativou pelo seu caráter. Nos conhecemos quando ele ainda estava no 2º ano da faculdade e, durante o namoro, nunca tive nenhuma decepção e o resultado foi o casamento. Já são 46 anos de matrimônio, com muito amor e respeito. Ele também sempre foi um pai muito presente para os filhos e para seus próprios pais. Posso dizer que tenho uma profunda admiração por ele” – Márcia, esposa.

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