Camila e Marina: O sonho realizado da dupla amamentação com os filhos gêmeos

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Ambas são mães de Theo e Gael e estão felizes em poderem dividir o ato do aleitamento materno e multiplicar o carinho e afeto com os bebês

Reportagem e texto: Natália Tiezzi

Em alusão ao ‘Agosto Dourado’, mês de conscientização e incentivo ao Aleitamento Materno e à Semana Mundial da Amamentação, o www.minhasaojose.com.br conta a história de um sonho realizado para o casal Camila Melo e Marina Manetta, que recentemente foram mães dos gêmeos Theo e Gael, que completam 40 dias neste 8 de agosto.

Ambas sempre sonharam com a maternidade e enxergaram na Fertilização In Vitro essa possibilidade por meio da CEFERP – Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto, uma das clínicas mais conceituadas da América Latina. “Através de um Programa chamado “Sonhar Juntos” foi possível realizar nosso sonho particular. Ele permite que mulheres saudáveis possam doar uma parte dos seus óvulos, cobrindo, assim, parte dos custos do tratamento. Então, em outubro de 2019 iniciamos o tratamento e a indução hormonal. Após foi realizado a coleta dos óvulos e no dia 14 novembro foi realizada a transferência de 2 embriões para o útero da Camila. Oito dias após o procedimento já tínhamos nosso tão esperado positivo. Tivemos muita sorte pois, em todas as etapas do tratamento, a Camila respondeu muito bem e com isso conseguimos na primeira tentativa”, explicou Marina.

Durante a gestação de Camila, Marina contou que já tinha o desejo de também poder amamentar os filhos, já que para Camila a lactação seria de forma natural devido a gravidez. Ambas procuraram auxílio médico e descobriram a possibilidade de realizar mais esse sonho: a dupla amamentação. Ao longo da entrevista, Marina e Camila falaram não apenas da importância nutricional do leite materno, mas também do vínculo afetivo cada vez maior que o gesto de amamentar está proporcionando a ambas com os filhos.

A reportagem também ouviu a médica pediatra Letícia Andreghetto e a fonoaudióloga Thaís Fontão para saber como foi possível as duas mamães amamentarem, os procedimentos e tratamentos para o êxito nos resultados. As duas confessaram que foi o primeiro caso de aleitamento materno duplo em um casal homoafetivo que realizaram. Confira, abaixo, as entrevistas e diga sim à amamentação!

Marina, Camila, vocês sempre tiveram essa vontade de amamentar em conjunto?

Marina Manetta e Camila Melo: Esta vontade teve início quando decidimos iniciar o tratamento, porque além de todos os benefícios do aleitamento materno, existe também a criação do vínculo afetivo, uma vez que os bebês não mamam apenas para satisfazer a fome. Eles mamam por medo, insegurança, saudade, aconchego, sono… Buscamos por profissionais para nos auxiliar e quando compartilhamos o nosso desejo com a Dra. Letícia, empolgada com a novidade, logo já aceitou o desafio e, em parceria com a Dra. Thaís, deram início a um protocolo de indução à lactação na Marina e deu muito certo.

Como você souberam dessa possibilidade das duas poderem amamentar?

A partir do momento que vimos uma publicação no Instagram de um casal homoafetivo, onde as mães amamentaram seus gêmeos na sala de parto, logo após o nascimento. A partir daí começamos a pesquisar e nos aprofundar no assunto, além de acompanhar este casal nas redes sociais.

Como é a rotina da amamentação? Vocês se revezam entre ambos ou uma amamenta exclusivamente um filho e a outra exclusivamente o outro filho?

Marina: Amamentação livre demanda, sem regras. A demanda maior com os dois é da Camila, mas como já observamos, o peito não é apenas para satisfazer a fome, então consigo ajudar muito.

Vocês passaram por alguma dificuldade no ato da amamentação?

Marina: Por incrível que pareça não tivemos dificuldade! Logo após o nascimento, o Theo já pegou o peito rapidamente e a Camila tem uma boa produção de leite.

Camila: O Gael precisou ficar uns dias na UTI Neonatal em Sertãozinho e antes de receber alta era preciso testar a sucção e a Marina, que o acompanhava, conseguiu amamenta-lo mesmo após uma semana de sonda para alimentação. Foi tudo tão lindo!

Qual é a sensação de poderem amamentar, em conjunto, as crianças?

A amamentação é um momento único, de vínculo e afetividade com o bebê. Para nós tem sido maravilhoso e nos faltam palavras para maiores detalhes… É, simplesmente, algo mágico…

Que mensagem vocês deixariam às futuras mamães sobre a amamentação, pois muitas ainda acreditam que o leite materno não sustenta, acham difícil amamentar, etc?

Amamentar não é fácil. Nós não tivemos dificuldades, mas sabemos que não é tão simples para todas as mães e é importante dizer isto! Também devemos salientar a importância de uma boa rede de apoio. O início é difícil, dói, cansa, a gente não dorme… e é nessa hora que você clama por ajuda e não aceita o “é assim mesmo” ou ” seu leite é fraco e não sustenta” que vêm de todos os lados. E não é assim mesmo! Busque ajuda. Não caia na cilada do “padecer no paraíso” de uma amamentação problemática. Às mães, cobrem este “paraíso”, porque ele existe e vocês merecem viver nele! Acreditem em vocês e no que os seus corpos são capazes!

Junto às mamães no momento da amamentação a médica pediatra Letícia Andreghetto e a fonoaudióloga Thais Fontão (Créditos: Luis Fernando Pourrat (@biscoitofotografo)

AS ETAPAS PARA ESTIMULAÇÃO AO ALEITAMENTO

A pediatra Letícia Andreghetto explicou à reportagem como foi feita essa estimulação, destacando que durante a gestação de Camila, ambas a procuraram já com esse desejo. “Começamos a traçar um plano para induzir a lactação na Marina. Fui atrás de fontes científicas seguras para me basear como iria fazer, pois para mim também era uma situação nova, a qual ainda não tinha lidado. Comuniquei a Thais, que é minha parceira e amiga, Fonoaudióloga e Consultora em Aleitamento, ela ficou animada com a idéia e já se prontificou. E falamos uma para a outra: ‘Vai ser um desafio, mas a gente vai fazer dar certo’.

A pediatra destacou que o êxito na amamentação dupla se deu principalmente pela grande vontade de Marina em amamentar. “Não foi nada forçado. A Marina estava muito animada, sonhou com isso o tempo todo, e sempre esteve muito convicta e confiante que daria certo”, destacou.

Com relação aos tratamentos e técnicas utilizados à estimular a produção de leite materno, a médica explicou que iniciou com uma medicação. “Fizemos exames laboratoriais e começamos a estimulação com uma medicação antes mesmo dos bebês nascerem para essa produção de leite. A partir do dia do parto, adicionamos outra medicação para estimular a ejeção do leite, e aumentamos a dose da medicação que ela já estava em uso. Iniciamos, também, a partir do dia parto, a estimulação dos seios da Marina com bomba elétrica de extração de leite. E ela fazia a estimulação algumas vezes ao dia. Ainda no hospital, no dia seguinte ao nascimento, colocamos um dos bebês no seio da Marina e ele mamou perfeitamente, com sucção bem efetiva. Marina ainda não tinha produção de leite neste momento, mas a partir daí comecei a ter certeza que daria certo, pois com tudo que estávamos fazendo aliado a sucção efetiva do bebê no seio – que é a melhor maneira de estimular e manter a produção de leite – eu acreditei que ela iria começar a produzi-lo! No quarto dia de vida dos bebês, já em casa, elas me mandaram uma foto. A Marina estava fazendo a estimulação com a bomba elétrica e, enfim, veio o que tanto esperávamos: as primeiras gotinhas começaram a pingar! Fiquei muito feliz com o resultado. Muito feliz mesmo. Foi uma situação nova para mim como profissional. E tem sido muito gratificante participar tão de perto de tudo isso”, disse, emocionada, a pediatra.

Letícia explicou que ambas podem amamentar os dois bebês, porém Camila, que foi quem gerou, por natureza acaba tendo mais produção e com isso eles mamam mais nela. “Mais ambos mamam nas duas. Na hora do cansaço, nas madrugadas, ter duas mães para amamentar tem sido uma ótima vantagem”, observou.

Sobre os benefícios dessa amamentação dupla, a médica foi enfática. “Acredito que o maior benefício é o vínculo dos bebês com a mãe que não os gerou. Theo e Gael estão criando vínculos com as duas que jamais serão quebrados. As duas são mães. Nenhuma é mais mãe que a outra. Os outros benefícios ficam na questão da experiência, realização pessoal e como casal. A Camila sozinha poderia amamentar os dois. Apenas uma mãe é possível nutrir dois bebês, o corpo é inteligente, entende essa demanda e produz leite para os dois. Mas elas escolheram viver isso juntas e ambas terem a experiência da amamentação”.

Com relação ao tratamento de estimulação à lactação em Marina, a pediatra salientou que ela ainda está usando as medicações. “Mas não vai ser para sempre, vamos parar em breve. O que mais ajuda a manter essa produção de leite que induzimos, fizemos acontecer, é a sucção dos bebês nos seios dela, e isso tem de sobra. Têm dois bebês lindos e saudáveis que mamam muito (risos)!”

Os bebês Theo e Gael estão saudáveis e desfrutando da dupla amamentação: nutrição, afeto e divisão de cuidados entre as mamães

MAIS QUE UM VÍNCULO DE AMOR: A DIVISÃO DE CUIDADOS

A fonoaudióloga Thais Fontão também teve participação efetiva para a realização deste sonho da dupla amamentação. “Orientei bastante tanto a Camila quanto a Mariana sobre a fisiologia da lactação e a possibilidade da utilização da técnica de translactação (onde o bebê sugaria a mama da Marina e receberia o leite extraído da Camila por meio de um recipiente acoplado à uma sonda que estaria no peito dela, por onde sairia o leite e o bebê sugando, ajudaria a estimular a produção), porém foi tudo tão perfeito que nem utilizamos essa técnica”, explicou.

Thais enfatizou que a amamentação dupla vai muito além do ato de alimentar os bebês. “Além da nutrição, do vínculo, outro ponto importante é a divisão nos cuidados com os bebês, principalmente elas, que tiveram gêmeos, o que facilita muito a manutenção do aleitamento materno exclusivo até os 06 meses e misto até os 02 anos ou mais, conforme é preconizado pela Organização Mundial da Saúde, bem como o auxílio entre as duas na hora do cansaço e do descanso de ambas”.

Thais finalizou dizendo que esse caso de dupla amamentação é um grande exemplo de que quando há vontade todos os sonhos podem ser realizados. “É uma quebra de paradigmas, pois acredito nas novas famílias e no amor. Era um sonho da Marina e participar dessa realização me encheu de orgulho e preencheu mais ainda meu coração pelo amor ao próximo”, finalizou.

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